POLÍTICA

Jussara anuncia estudo para saber se obra em Porto Alegre não vai inundar Cachoeirinha

Prefeitura contratará avaliação técnica independente para medir impactos do fechamento dos pôlderes sobre Cachoeirinha; seminário expôs divergências entre especialistas

Cachoeirinha – A prefeita Jussara Caçapava anunciou, na manhã desta segunda-feira (27), que a Prefeitura de Cachoeirinha contratará um estudo técnico independente para avaliar os possíveis impactos das obras de proteção contra enchentes executadas em Porto Alegre sobre o território do município. A decisão foi divulgada logo após o encerramento do Seminário sobre os Danos Causados pelas Enchentes na Região Metropolitana de Porto Alegre, promovido pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados no Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC).

Um dos temas do debate foi justamente o impacto do fechamento dos pôlderes 7 e 8, na zona norte da Capital, sobre o nível do Rio Gravataí em Cachoeirinha. O termo “pôlder” tem origem técnica e, na prática, é usado para delimitar uma bacia do sistema que é protegida por diques, com sistema de drenagem artificial. Enquanto representantes do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre defenderam que o reflexo será praticamente insignificante, técnicos ligados ao município sustentaram que qualquer elevação do nível do rio pode representar risco em situações de cheia.

Ao anunciar a contratação do estudo, Jussara afirmou que a Prefeitura acompanhará tecnicamente todas as intervenções relacionadas ao sistema de proteção contra enchentes. “Nossa responsabilidade é defender os interesses de Cachoeirinha. Vamos acompanhar tecnicamente cada intervenção e ter um estudo próprio, para que nenhuma decisão seja tomada sem que o município tenha segurança sobre seus impactos.”

Segundo a prefeita, a iniciativa marca uma mudança de postura da administração municipal, que pretende acompanhar de forma preventiva, técnica e transparente todas as obras capazes de influenciar a segurança da cidade.

A decisão foi tomada poucas horas depois do debate durante o seminário. O vereador de Porto Alegre Ramiro Rosário apresentou estudos hidrológicos que embasam a obra em execução na Capital e afirmou que o fechamento dos dois pontos do sistema de proteção provocará um aumento entre 4,23 e 6,21 milímetros no nível do Rio Gravataí em Cachoeirinha no pior cenário simulado. Segundo ele, esse impacto corresponde a menos de meio centímetro e não seria suficiente para provocar inundações no município.

Ramiro explicou que a intervenção não consiste na construção de um novo dique, mas no fechamento de dois pontos vulneráveis do sistema para impedir que, durante grandes cheias do Gravataí, a água invada novamente o bairro Sarandi e o Aeroporto Internacional Salgado Filho, como ocorreu em maio de 2024.

Apesar de defender a obra, o vereador reconheceu que Cachoeirinha continua precisando de investimentos próprios em seu sistema de proteção. “O impacto dessa obra específica não é o fator que vai prejudicar Cachoeirinha. O problema está nas falhas do sistema de proteção contra enchentes do outro lado do Rio Gravataí [no caso, Cachoeirinha], onde faltam novos diques e obras estruturantes.”

Na mesma linha, o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, afirmou que a solução adotada em Porto Alegre passou por quase dois anos de estudos e análises técnicas antes do início da execução. Segundo ele, a área protegida pelos pôlderes 7 e 8 corresponde a cerca de quatro quilômetros quadrados, enquanto toda a bacia do Rio Gravataí possui aproximadamente dois mil quilômetros quadrados, razão pela qual o impacto hidrológico seria reduzido.

Capeluppi também destacou que a obra não foi concebida de forma isolada e integra um conjunto maior de intervenções para reforçar a proteção contra enchentes na Região Metropolitana. O relator da comissão externa, deputado federal Pompeo de Mattos, disse ter compreendido a explicação técnica apresentada durante o seminário e afirmou que a obra em Porto Alegre não deve ser motivo de alarme para Cachoeirinha. No entanto, ressaltou que isso não reduz a necessidade de acelerar os investimentos no sistema de proteção do município.

Segundo ele, o trecho de diques entre Gravataí, Cachoeirinha e Canoas continua frágil e precisa receber obras antes da próxima grande enchente. O contraponto foi apresentado pelo assessor técnico da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Cachoeirinha, Eduardo Gregis. Para contestar a tese de que um aumento de poucos milímetros seria irrelevante, ele realizou uma demonstração prática durante o seminário utilizando dois copos com água.

Após encher ambos quase até a borda, acrescentou um pequeno volume em um deles, fazendo a água transbordar sobre a mesa. Segundo Gregis, o experimento demonstra que, quando o sistema de proteção já opera próximo do limite, uma elevação aparentemente pequena pode representar milhões de litros adicionais pressionando os diques. “O copo cheio, uma gota basta. Se estivermos no limite do que é suportável, esses milímetros podem representar milhões de litros de recalque para Cachoeirinha.”

O anúncio da contratação do estudo independente ocorre justamente em meio a esse debate técnico. A expectativa da administração municipal é utilizar a avaliação para acompanhar as intervenções em andamento e subsidiar futuras decisões sobre o sistema de proteção contra enchentes da cidade.

As obras dos pôlderes 7 e 8 estão cerca de 30% concluídas e preveem a construção de um dique de aproximadamente 100 metros entre o Arroio Passo das Pedras e o Rio Gravataí, além da instalação de um sistema móvel de fechamento no Arroio Areia, evitando que a água do rio avance por ele. O investimento é de aproximadamente R$ 47 milhões, com recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), e integra a primeira etapa do projeto estadual de proteção da bacia do Rio Gravataí. Essas intervenções têm como objetivo reduzir o risco de novas inundações na zona norte de Porto Alegre e no Aeroporto Internacional Salgado Filho.

Artigos relacionados

error: Não autorizamos cópia do nosso conteúdo. Se você gostou, pode compartilhar nas redes sociais.