POLÍTICA

Entrevista-bomba: “É um golpe claro e cristalino da família Caçapava”, diz Cristian

Prefeito, alvo de dois pedidos de cassação, ao lado do seu vice, delegado João Paulo, revela bastidores e movimentos de Jussara Caçapava e seus filhos

Cachoeirinha – O prefeito de Cachoeirinha, Cristian Wasem, ao lado do vice-prefeito delegado João Paulo, convocou a imprensa para um pronunciamento no Hotel Alano na manhã desta segunda-feira (24) e afirmou que a família Caçapava, da presidente da Câmara, Jussara Caçapava, lidera um movimento golpista em Cachoeirinha para se tornar prefeita.

 A data para a entrevista não foi escolhida ao acaso: no dia seguinte, 25 de novembro, completam-se três anos da diplomação da chapa eleita em 2021 — um ciclo que, segundo o prefeito, tem sido marcado por entregas, enfrentamentos e, agora, por aquilo que ele classifica como “um golpe visível, claro, cristalino, um golpe”.

O alvo das críticas de Cristian é a Câmara de Vereadores, especialmente Jussara Caçapava, que seria a líder do movimento golpista com dois processos de impeachment contra ele e o vice. Para Cristian, não há qualquer dúvida sobre a motivação: “A política quer derrubar a gestão pública. Eles podem até nos caçar, mas nós vamos deixar um legado de moralidade na cidade.”

O prefeito afirma que todo o processo é articulado e que tem origem antiga: “Esse golpe já se iniciaria lá na época do governo anterior, planejado pela família Caçapava.” Ele relata que, quando era vereador e deveria assumir a presidência da Câmara no primeiro ano da legislatura, foi procurado pelos filhos da atual presidente, Jussara Caçapava, para que cedesse o posto a ela. Cedeu.

Mas a cassação do governo Miki/Maurício veio no segundo ano, quando ele voltou a ser candidato natural à presidência. “Houve toda uma costura para descumprirem o acordo. Batalhei muito para assumir e assumi. E, pelo destino, acabei assumindo interinamente a prefeitura. O plano 1 da família Caçapava não deu certo”, diz.

“Nós fechamos portas que nunca haviam sido fechadas”

Cristian sustenta que o desconforto político se agravou quando a atual gestão decidiu retirar o uso político das funções gratificadas, historicamente atreladas a acordos de vereadores. “As funções gratificadas eram moeda política. Isso desanimava o servidor. Nós entregamos as chefias para quem realmente trabalha. Nós valorizamos o servidor. E isso incomodou muita gente”, afirma.

Ainda segundo o prefeito, a distribuição de cargos e secretarias sempre foi cumprida à risca pela atual gestão, e ouvir dos vereadores que se sentiam “não valorizados” foi, segundo ele, uma surpresa: “Nós fizemos tudo pelos vereadores. Cumprimos a palavra com todos. E ontem estavam comigo, almoçando comigo, fazendo vídeos comigo, com toda liberdade. Hoje me entregam um golpe.”

Interação com órgãos de controle

Cristian relembra os episódios envolvendo as telas interativas, adquiridas via ata de registro de preços utilizada por diversos municípios. Ele menciona que houve investigação da Polícia Federal e ação cautelar do Tribunal de Contas, mas afirma que nada foi encontrado: “Entreguei meu telefone com senha. O delegado da PF escreveu no despacho que eu não tinha problema algum.”

Ele lembra que as telas estão em uso, que a decisão judicial da Ação de Investigação Eleitoral (AIG) o inocentou em primeiro grau, e que, mesmo assim, itens da investigação foram usados por adversários para embasar o impeachment.

Em outro caso, envolvendo cestas básicas, Cristian diz que novamente entregou o celular e colaborou totalmente com as investigações. “Eu duvido que muitos entregariam seus celulares. Eu entreguei duas vezes. E, mais uma vez, fui excluído do problema.” Ele acrescenta: “Tudo vai no CPF do prefeito. Culpa ou não, ele responde. E eu respondi. E fui inocentado.”

As entregas da gestão

  • O prefeito fez um longo levantamento de obras e ações realizadas, entre elas:
  • Reformas e construção de escolas: Menino Jesus, Maria Paim, Natálio Schlain e Arco-Íris;
  • Aquisição de imóveis para expansão da rede;
  • Ampliação da merenda, uniformes completos, mais professores;
  • Unidades de saúde Chico Mendes e Granja Esperança em construção;
  • Ecopontos estruturados;
  • Centro de Saúde do Idoso, ambulatório da dor e atendimento à fibromialgia;
  • Reconstrução da Menino Jesus após interdição;
  • Reorganização administrativa e previdenciária, colocando Cachoeirinha entre as cinco melhores carteiras previdenciárias do Estado;
  • Restabelecimento do crédito do município, obtenção do Finisa e pré-aprovação de financiamento internacional de mais de 70 milhões de dólares.

“Cachoeirinha volta ao cenário do Estado. Nós equilibramos a gestão pública com a política, e por isso as entregas começaram a acontecer. Agora querem que tudo volte à velha lógica dos vícios políticos”, afirma.

O ponto de ruptura

Segundo Cristian, a discussão que levou aos pedidos de impeachment passa por cargos, por influência em secretarias e pela tentativa de vereadores de manter controle sobre unidades de saúde. “Se for para entregar a cidade aos mesmos vícios políticos, então prefiro ser cassado. Não entrego a cidade para vereador mandar em posto de saúde. Não abro mão da moralidade.”

Um dos momentos mais fortes do pronunciamento foi quando disse ter sido pedido o afastamento da primeira-dama. “Queriam tirar a minha esposa. Uma mulher que me ajuda a cuidar dos detalhes. Não vou abrir mão dela por negociata política nenhuma. Prefiro sair de mãos dadas com ela, como entrei.”

A fala como morador — e as denúncias contra a Câmara

Cristian encerrou o pronunciamento dizendo que deixaria de falar como prefeito e passaria a falar “como morador da cidade”. “Filho dessa terra … [de] tantos ensinamentos do meu pai, que foi brigadiano, que foi da Brigada Militar, ele deixou um ensinamento muito importante para mim: ‘Meu filho, tenha coragem. Tenha coragem. Se tu tiveres certo, com razão, enfrenta com elegância, mas segue com disciplina e segurança os teus princípios’”.

Durante a entrevista, o prefeito revelou que chegaram ao Tribunal de Contas do Estado denúncias sobre irregularidades na Câmara de Vereadores. Especificamente na gestão da presidente Jussara Caçapava.

Ele afirma que O controle interno da Câmara recomendou a anulação de processos e atos administrativos. O controle interno da Prefeitura também foi comunicado e emitiu recomendações. Há processos no Tribunal de Contas, segundo ele, envolvendo a reforma da Câmara, publicidade e contratações.

Sobre a reforma da Câmara, Cristian apontou: “Mais de 1 milhão de reais. Uma empresa criada há 6 meses. O engenheiro que declarou emergência é o mesmo responsável técnico da empresa contratada.”

Ele cita ainda: “Uma escada custou 145 mil reais. Preço de um apartamento.”

E completa: “A presidente esmagou princípios administrativos, esmagou artigos da Lei 14.133. É assustador o que fizeram acreditando que nada aconteceria.”

“É um golpe”

Cristian encerrou afirmando que acredita que alguns vereadores ainda vão refletir e reverter o cenário: “Eu conheço eles. Quero acreditar que muitos deles foram ameaçados ou pressionados. Tenho esperança.” Mas, para ele, a situação é inequívoca: “É um golpe visível, claro, cristalino, um golpe.” E reforça que, mesmo que a cassação avance, sua história ficará: “Eles podem me tirar da cadeira, mas não vão apagar o legado de moralidade, coragem e entrega que deixamos para Cachoeirinha.”

A reportagem procurou a presidente da Câmara e não recebeu retorno.

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