POLÍTICA

Vítimas da enchente protestam e Parque da Matriz quer estudos para conter cheias

Moradores de um dos bairros mais atingidos pela enchente de 2024 seguem cobrando o poder público

Cachoeirinha – Moradores do bairro Parque da Matriz, um dos mais atingidos pela enchente de maio de 2024 em Cachoeirinha, voltam a cobrar respostas do poder público diante da ausência de projetos concretos para conter novas inundações. Quase dois anos após a tragédia, a principal reivindicação segue a mesma: estudo técnico, planejamento e obras — itens que, segundo os próprios moradores e entidades técnicas, ainda não existem para a região.

A insatisfação ganhou as ruas na tarde da última quinta-feira (26), quando vítimas da enchente realizaram um protesto na ponte de acesso à cidade. O ato reforçou o sentimento de abandono por parte de quem vive no bairro, considerado uma das áreas mais vulneráveis às cheias do Rio Gravataí.

Um dos integrantes da Comissão de Moradores do Parque da Matriz, Elenilso Portela, relatou, nesta sexta-feira (27), que a preocupação aumentou após reunião realizada no dia 10 de março com o secretário municipal de Planejamento e Orçamento, Gustavo Novakoski. Segundo ele, ficou claro que não há nenhuma medida concreta em andamento para o bairro. A reportagem procurou o secretário e não obteve retorno. Caso responda, o texto será atualizado.

“Saímos mais preocupados do que entramos. Não existe nada de concreto para proteção contra enchentes no Parque da Matriz. O próprio secretário disse que o anteprojeto do município não contempla o bairro e que essa responsabilidade seria do Governo do Estado”, afirmou.


A declaração reforça um cenário de indefinição institucional, no qual nem o município nem o Estado apresentam, até o momento, soluções específicas para a região.

Moradores querem estudos e projetos

Exclusão confirmada em documento técnico

A ausência do bairro nos planos estruturais também aparece formalmente em documentos técnicos. A ata da reunião entre a Associação dos Geólogos, Engenheiros e Arquitetos de Cachoeirinha (AGEA) e a Metroplan, registrada no Ofício nº 14/2025, de 2 de julho de 2025, confirma que o Parque da Matriz está fora do traçado atual do projeto de contenção de cheias da bacia do Rio Gravataí.

No documento, a Metroplan é categórica:

“Não é possível, neste momento, alterar o traçado do projeto – como incluir o Parque da Matriz – sem reiniciar todo o processo, incluindo novos estudos, novo licenciamento e nova tramitação junto à FEPAM.”

A própria AGEA também destacou, na mesma ata, que “a região do bairro Parque da Matriz não está contemplada no traçado do sistema de contenção de cheias previsto no anteprojeto atualmente sob análise”, apontando preocupação com a quantidade de moradores expostos e a ausência de estruturas como diques ou casas de bombas.

Apesar disso, até agora não há sequer previsão de contratação de estudo de impacto ambiental específico para o bairro — situação diferente de outras áreas da cidade e da região, como o projeto do dique Cachoeirinha-Canoas.

Sem estudo, sem projeto e sem prazo

A principal crítica dos moradores é justamente essa lacuna: não há projeto em andamento, não há estudo técnico contratado e tampouco um cronograma definido.

Enquanto isso, especialistas alertam que qualquer solução estrutural depende da atualização da cota de alagamento da bacia — dado técnico essencial que ainda aguarda análise da FEPAM. Sem isso, novos projetos não podem ser elaborados com segurança, o que contribui para a paralisação das iniciativas.

Mesmo diante dessa limitação técnica, a AGEA já sugeriu alternativas, como a criação de um projeto independente exclusivamente para o Parque da Matriz. A proposta inclui a construção de dique local e instalação de casas de bombas, com financiamento via Fundo Estadual de Reconstrução (Funrigs) ou recursos internacionais. No entanto, nenhuma dessas medidas foi efetivamente iniciada pelo poder público.

Histórico de entraves

A falta de avanço nos projetos não é recente. Em dezembro do ano passado, moradores já haviam protestado em frente ao Palácio Piratini cobrando a liberação de recursos. Na ocasião, foi informado que projetos enviados pela Prefeitura ao Fundo Rio Grande estavam parados por falta de resposta do município a solicitações feitas pelo Estado em agosto, setembro e outubro.

Documentos técnicos apontaram inconsistências e ausência de informações complementares, como mapas georreferenciados e planos de trabalho, que nunca teriam sido apresentados.

Medo de novos eventos extremos

A apreensão dos moradores aumenta diante dos alertas climáticos. Meteorologistas já indicam a possibilidade de retorno do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026, o que pode elevar o risco de novos eventos extremos no Rio Grande do Sul. Sem obras estruturais, sem estudos e sem planejamento específico, o Parque da Matriz segue exposto.

O que pedem os moradores

Entre as principais reivindicações estão:

  • Início da obra de extensão do dique entre Cachoeirinha e Canoas
  • Elaboração de estudos técnicos e projetos para o Parque da Matriz
  • Execução de obras de proteção contra enchentes
  • Funcionamento pleno das casas de bombas
  • Manutenção preventiva do dique atual
  • Limpeza eficiente do sistema de drenagem urbana

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