Secretaria da Educação explica na Câmara o convênio Pacto pela Alfabetização - oreporter.net - Notícias de Cachoeirinha e Gravataí
Reunião durou mais de 1h30min - Fotos: Reprodução

Secretaria da Educação explica na Câmara o convênio Pacto pela Alfabetização

Vereador David Almansa levantou questões como racismo em material didático e imposição do novo método

Cachoeirinha – A Comissão de Educação, Cultura, Desporto e Lazer da Câmara de Vereadores ouviu nesta quinta-feira (29) explicações da secretária municipal da Educação sobre o convênio firmado entre a prefeitura e o Instituto Raiar para a implantação de um novo método de alfabetização em Cachoeirinha com a utilização de materiais didáticos produzidos pelo Instituto Alfa e Beto. Acompanhada da coordenadora pedagógica, Ana Cristina Martins, e da coordenadora do programa, Kely de Jesus, a secretária explicou que o convênio não terá custo para os cofres públicos , que o pacto veio para trazer algo a mais para os professores e que a autonomia deles não foi retirada.

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“A gente não consegue entender porque tudo isso com relação a esse material. Em momento algum vamos tirar a autornomia dos professores. É um material maravilhoso. Nós queremos que ao final deste três anos [tempo de duração do convênio] é que todos os nossos alunos do segundo ano possam estar alfabetizados”, argumentou. O convênio prevê o atendimento de 4,5 mil alunos do Pré II até o segundo ano do ensino fundamental. O vereador David Almansa (PT) levantou questionamentos sobre o convênio. Segundo ele, o material contém conteúdo classificado por ele como de racismo estrutural, além de não agradar a um grupo de educadores.

A Comissão de Educação da Câmara é composta apenas por vereadores oposicionistas e nenhum integrante da base do Governo acompanhou a reunião. O vereador Mano do Parque (PP), assim como David, também questionou se não houve uma imposição do novo sistema. O assunto não se esgotou nesta quinta, conforme o presidente da Comissão, Marco Barbosa. Uma audiência pública, sugerida por Almansa a partir de comentários feitos por pessoas que acompanhavam a transmissão ao vivo, deverá ser avaliada. Barbosa, antes de decidir esta questão, pediu para a secretária enviar toda a documentação sobre o convênio para que os parlamentares possam se aprofundar no tema, considerado por ele bastante complexo.

Rosinha deixou claro em mais de uma oportunidade que o material disponibilizado pelo convênio não interfere na autonomia de professores e que ele não se constitui em uma base da alfabetização sendo tão somente um material de apoio como tantos outros utilizados em salas de aula.

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Confira no vídeo como foi a reunião:

Almansa também questionou a secretária sobre a orientação de que professores que não aderirem ao método do Raiar devem solicitar mudança de turma. Segundo a secretária, nenhum professor é obrigado a seguir o método e ocorreu um caso em que uma educadora pediu para trocar de turma. O pedido foi atendido porque havia a possibilidade de ela deixar a alfabetização.

Como o ensino está estruturado

A coordenadora pedagógica da secretaria, Ana Cristina Martins, que está entre as educadoras mais qualificadas da pasta, fez uma longa explanação para responder questionamentos dos parlamentares.

Ana começou explicando que em Cachoeirinha, desde 2012, a educação é estruturada em módulos de aprendizagem. Os alunos, detalhou, são desenvolvidos em três módulos: alfabetizador, estruturante e sistematizante. Existe também o sistema de ciclos, mas esta opção não foi adotada na cidade. A diferença é que nos ciclos, “que veio de Moacir Gadott, de Paulo Freire o aluno vai se desenvolvendo lincado um conteúdo no outro.” Já nos módulos, ele tem que apresentar o conhecimento básico para avançar para o seguinte.

Este sistema de módulos gerava muitas reclamações e o prefeito Miki Breier, no primeiro mandato, pediu um estudo para que ele fosse extinto. “Nós fizemos um estudo em 2017 e 2018 sobre a organização do ensino, que foi concluída em um congresso em abril de 2018 e deste congresso saiu todas as demandas da reorganização de ensino, que então o Conselho Municipal de Educação estruturou na resolução 25/2019. O que diz essa resolução: que cada escola iria organizar o seu Projeto Político-Pedagógico (PPP) e o seu regimento. Assim foi feito. Essa resolução também disse que a secretaria de Educação iria ouvir a rede e organizar a avaliação e assim foi feito. Saiu então a portaria 01/2019 dizendo como era a avaliação”, contou.

Na rede municipal, explicou Ana, das 20 escolas, 14 tem metodologia de projetos e estão dentro da pedagogia do cognitivismo, do construtivismo, que veio da base teórica de Platão e Aristóteles. “As escolas que botaram pedagogia ativa, metodologia ativa, elas constroem uma relação entre unidades didáticas, entre unidades de projetos para criar a sua metodologia e elas também estão embasadas no conhecimento, no cognitivismo”, disse.

“Quando nós avaliamos o pacto, nós pensamos em respeitar o que a escola definiu. E a escola definiu em sua metodologia o construtivismo e os módulos foram rediscutidos e por opção da rede foram mantidos, só foram redivididos. O módulo de alfabetização tem do primeiro ao terceiro ano, o módulo estruturante inicial do quarto ao quinto, estruturante final do sexto e do sétimo e as questões de sistematizar, de fechar no cérebro dos nossos alunos, entraram no oitavo e nono ano. Então, quando há aí uma citação que o método que o pacto propõe não fecha com a Constituinte Escolar, quero dizer que nós entendemos que fecha muito, porque a Constituinte Escolar pediu pluralidade de ideias e a escola fez isso quando definiu o seu Projeto Político-Pedagógico (PPP) e seu regimento”, argumentou.

Segundo Ana, as escolas definiram seus planos de estudo preservando a base comum e pode escolher o componente da chamada parte diversificada. “Das 20 escolas, cinco tem na parte diversificada o componente curricular ciência literária. As demais, todas tem questões de cidadania, de ética e diversidade. É importante que a gente esclareça que o método do pacto, além de analítico, sintático e sintético, ele trabalha o fonema e o grafema juntos, nunca separado, o que está na psicogênese da leitura e escrita da Emília Ferreiro, que estudou com Piaget, e Vygotsky, que também está aí quando eu falo da zona de desenvolvimento proximal e relacional. O aluno não aprende só a ler, ele não aprende só a escrever. Ele faz essas coisas ao mesmo tempo. E o pacto não é aquele método que dizem atrasado porque trabalha o ba be bi bo bu, pa pe pi po pu. O método do pacto trabalha o texto, o seja, o contexto, ele trabalha as palavras, o fonema dessas palavras e a escrita dessas palavras e outras que advém deste fonema.”

A coordenadora ainda explicou que a inclusão não foi esquecida. Hoje, a rede tem 646 alunos, sendo 203 com autismo. “Logo depois da chegada do aluno na escola é feito um planejamento de desenvolvimento desse aluno. Dentro do Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) tem um lugar que se escreve adaptação curricular. Desde o berçário até o nono ano. As professoras que atendem o aluno e a professora da Sala de Atendimento Educacional Especializado (SAE), que coordena, preveem as habilidades que são possíveis desenvolver num primeiro momento. A cada conselho de classe, a cada trimestre, a gente reavalia esse PDI e os pais recebem um parecer descritivo a cada trimestre. O pacto já fez uma formação com a equipe de inclusão da secretaria de Educação, das 25 profissionais do SAE e dos 29 educadores sociais para trabalhar essas questões”, salientou.

Citação fora de contexto

A coordenadora do Pacto pela Alfabetização, Kely de Jesus, comentou outras questões levantadas por David Almansa, que uma citação de que crianças que não aprendem a ler podem não sair da pobreza. Kely explicou que esta citação faz parte do material de sensibilização de pais e que foram sugestões aos professores nos slides. “Nós conversamos com os professores e entregaremos um protocolo de sensibilização. Leiam e apreciem e vejam se isso está de acordo com a comunidade de vocês colocando ou tirando informações. Uma diretora mandou mensagem perguntando se poderia retirar aquela parte que se a criança que não lê no primeiro ano e eu disse com certeza. Trabalha com a tua realidade, mas deixa claro a importância de uma criança alfabetizada e o que pode acontecer com uma criança que não se alfabetiza.”

Os slides possuem diversos outros argumentos do que pode acontecer com uma criança que não aprende a ler. A coordenadora não disse textualmente, mas o vereador extraiu uma parte do texto e deu uma dimensão superior a citação. Ela comentou ainda que foi realizada uma pesquisa com os professores sobre quantos alunos estão em grupos de whats e definido que os links de vídeos poderiam ser passados pelo aplicativo e se assistidos dentro dele não consomem dados do plano de internet, mesmo sendo pré-pago. Já quem não tem acesso a internet pode continuar indo na escola retirar o plano de aula na forma impressa. Kely também deixou claro que os professores têm total autonomia no uso do material podendo suprimir o que não acham adequado para a realidade de suas comunidades ou acrescentar algo que acham importante.

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