POLÍTICA

Opinião: Governo Jussara segue um caminho semelhante ao de Cristian cassado

Governo que não conversa com a imprensa não está deixando de conversar apenas com jornalistas. Está deixando de prestar contas à população

Cachoeirinha – Obter informações da Prefeitura de Cachoeirinha tem se revelado um verdadeiro parto. E seria injusto colocar a responsabilidade exclusivamente sobre a Secretaria de Comunicação. A dificuldade enfrentada pelo O Repórter para conseguir informações sobre assuntos de interesse público é, muitas vezes, a mesma enfrentada pela própria Comunicação dentro do governo: secretários não respondem, informações não chegam e temas que deveriam ser tratados com transparência acabam cercados por silêncio.

É um caminho perigoso e que lembra um dos problemas do governo do ex-prefeito Cristian Wasem, cassado em 2025. Independentemente das circunstâncias políticas que levaram ao fim daquele governo, havia uma dificuldade evidente de comunicação. A administração não conseguia, ou não queria, estabelecer uma relação adequada com a imprensa e, consequentemente, com a população.

Comunicação pública não é propaganda. Também não significa divulgar apenas aquilo que interessa ao governo. A publicidade dos atos da administração pública é um princípio estabelecido pela Constituição. Quando um secretário ocupa um cargo público, prestar informações sobre sua área deixa de ser uma questão de simpatia por determinado jornalista ou veículo. Faz parte da função.

No governo Jussara Caçapava, começa a aparecer um problema semelhante. A Secretaria de Comunicação pode produzir releases, fotografias e materiais institucionais, mas não consegue cumprir plenamente sua função se as demais secretarias não fornecerem informações. E os secretários também precisam compreender que a assessoria de imprensa não pode funcionar como uma barreira entre eles e os veículos de comunicação.

Recentemente, um episódio curioso mostrou que integrantes do próprio governo acompanham atentamente o noticiário local. Uma pessoa ligada ao núcleo duro da administração enviou, por engano, uma mensagem para um dos telefones do O Repórter. O áudio foi ouvido antes de ser apagado. Nele, cobrava outra pessoa, que parecia ser de outro veículo de comunicação, para produzir mais notícias de Cachoeirinha porque o O Repórter estaria “bem na frente”.

Não sei exatamente o que ela pretendia dizer com isso. Parece que o interesse era de que o outro veículo produzisse mais conteúdo da cidade do que nós. E qual seria o motivo? Bom, para isso vão ter que contratar um batalhão de pessoas. Apesar da nossa equipe ser pequena, nenhum outro veículo teria capacidade de tamanha produtividade. E conseguimos produzir muito porque gostamos do que fazemos. E conhecemos a cidade como poucos.

O site O Repórter não tem que esperar a Prefeitura produzir notícia. Nossa função é justamente procurar a informação, acompanhar a Câmara, fiscalizar o Executivo, conversar com fontes, cobrar respostas e transformar assuntos de interesse público em notícia. É para isso que existe imprensa.

E fazemos isso com uma equipe enxuta.

O oreporter.net é hoje um veículo com cobertura diária e intensa dos assuntos de Cachoeirinha. Esse trabalho também acaba pautando outros veículos. Jornalistas de veículos da Capital acompanham nossas publicações e, em diferentes situações, procuram nossa redação como fonte para entender acontecimentos do município. Isso não deveria incomodar ninguém dentro da Prefeitura. Pelo contrário. Um governo que pretende dar transparência aos seus atos deveria enxergar na existência de uma imprensa local atuante uma oportunidade para fazer a informação chegar à população.

Também não basta abastecer a Secretaria de Comunicação. Secretários precisam falar. Quando procurados por jornalistas sobre assuntos de suas áreas, precisam responder, respeitados, evidentemente, os limites legais, técnicos e administrativos de cada situação.

Há uma diferença fundamental entre comunicação institucional e jornalismo. A Prefeitura divulga aquilo que realiza. A imprensa pergunta também sobre aquilo que não funcionou, sobre o que atrasou, quanto custou, quem decidiu, por que determinada medida foi tomada e quando um problema será resolvido.

É justamente aí que a transparência é colocada à prova. O governo Jussara ainda tem tempo para corrigir essa relação. A prefeita precisa deixar claro aos integrantes do primeiro escalão que prestar informações não é um favor à imprensa. Faz parte da responsabilidade de administrar uma cidade.

Se os secretários continuarem tratando pedidos de informação como algo que pode simplesmente ser ignorado, a Prefeitura corre o risco de repetir um erro de governos anteriores: comunicar muito quando interessa e desaparecer quando surgem as perguntas.

E governo que não conversa com a imprensa não está deixando de conversar apenas com jornalistas. Está deixando de prestar contas à população.

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