Opinião: escola Fidel Zanchetta pertence à comunidade, não a uma família ou grupo ideológico
Se o nome Fidel Zanchetta passou a ser usado como argumento para impedir a comunidade de escolher pela escola cívico-militar, então que seja discutida a mudança do nome
A discussão sobre a implantação de uma escola cívico-militar em Cachoeirinha precisa ser conduzida com seriedade. Antes de condenar ou defender o projeto, é necessário conhecer a proposta, analisar os custos e ouvir a comunidade escolar. A Prefeitura criou uma Comissão Especial de Estudos para avaliar a viabilidade técnica, pedagógica, jurídica e orçamentária do modelo. O grupo é coordenado pelo secretário municipal de Educação, Ildo Júnior.
A criação da comissão não significa que a implantação já esteja decidida. Também não significa que uma escola será transformada em quartel. Existe um estudo em andamento. Somente depois dessa análise será possível saber se o projeto poderá avançar. Se a EMEB Fidel Zanchetta está sendo considerada, pais, professores, funcionários e estudantes precisam ser ouvidos. Nenhum modelo educacional deve ser imposto. A decisão precisa ser tomada com transparência e participação da comunidade escolar.
As denúncias de que servidores contrários ao projeto teriam sido orientados a pedir remanejamento também precisam ser investigadas. Nenhum profissional pode sofrer pressão. Entretanto, uma denúncia não deve ser apresentada como fato comprovado antes da apuração. E também não pode ser usada para inviabilizar um estudo. Uma escola cívico-militar municipal não é um colégio administrado pelas Forças Armadas. São modelos diferentes. Reconhecer essa diferença não torna a proposta falsa.
A escola continuaria pública e vinculada à Secretaria Municipal de Educação. Os professores permaneceriam responsáveis pelo ensino, pelas avaliações e pelo projeto pedagógico. Os militares da reserva atuariam na organização da rotina escolar e na convivência fora da sala de aula.
Também não existe uma definição sobre a remuneração desses profissionais. Por isso, não há fundamento para afirmar que receberão salários superiores aos dos professores. A comissão deverá informar quanto o projeto custará, quais serão as funções dos militares e de onde sairão os recursos.
Chamar militares da reserva de “bedéis”, como eu li, ou dizer que desejam apenas fazer um “bico” não é argumento pedagógico. É uma tentativa de desqualificar pessoas antes da definição das regras de seleção e das responsabilidades de cada profissional.
O bom desempenho dos tradicionais colégios militares não pode ser atribuído somente à disciplina. Essas instituições possuem processos seletivos, estruturas próprias e investimentos diferenciados. Isso não significa que organização, acompanhamento da frequência e respeito às regras não contribuam para a aprendizagem. Um ambiente organizado ajuda o professor a ensinar e permite que o estudante se concentre nos estudos.
Disciplina não é sinônimo de medo. Toda escola possui horários, direitos, deveres e limites. Ensinar um estudante a respeitar colegas, professores, funcionários e o patrimônio público não impede o pensamento crítico. O aluno pode aprender a questionar, argumentar e discordar. Também pode aprender a cumprir regras e respeitar outras pessoas. Liberdade e responsabilidade não são valores incompatíveis.
E é bom a gente dizer aqui, deixando bem claro, que há muitos professores doutrinadores de esquerda em salas de aula. Não nos façamos de ingênuos. Essa discussão parece colocar, de um lado, quem busca melhorar a qualidade da Educação e, de outro, quem insiste em transformar a escola em espaço de doutrinação ideológica, formando jovens mais inclinados à militância inconsequente do que ao exercício responsável da cidadania.
O nome da escola não representa um veto
Fidel Zanchetta teve participação importante na história de Cachoeirinha. Ele doou o terreno e ajudou a construir a escola que recebeu seu nome. Essa contribuição merece reconhecimento. Sônia Zanchetta, filha de Fidel, também possui uma trajetória respeitada no jornalismo e na cultura. Seu trabalho deve ser reconhecido, independentemente de sua posição política.
Entretanto, não é por quem foi o pai de Sônia Zanchetta, nem por quem ela é, que a EMEB Fidel Zanchetta pode ou não ser escolhida para receber o modelo cívico-militar. O nome da escola representa uma homenagem. Ele não concede à família ou grupo ideológico autoridade sobre as decisões da instituição. Também não impede que a comunidade escolha um projeto diferente das convicções políticas da pessoa homenageada ou de seus familiares. A escola é pública. Ela pertence à comunidade de Cachoeirinha.
O posicionamento progressista de Sônia Zanchetta deve ser respeitado. No entanto, esse posicionamento não pode funcionar como veto. Se ela fosse conservadora, também não teria o direito de impor o modelo cívico-militar. A participação da professora Ana Fogaça na história da instituição igualmente merece reconhecimento. O fato de ela ter sido comunista não transforma a escola em propriedade ideológica de um grupo político. A escola não pertence à esquerda nem à direita. Também não pertence ao governo, ao sindicato ou à família da pessoa homenageada. Ela pertence aos estudantes e à comunidade.
Se o nome Fidel Zanchetta passou a ser usado como argumento para impedir a comunidade de escolher, então que seja discutida a mudança do nome da escola. É melhor mudar o nome da instituição do que aceitar a ideia de que uma homenagem concede autoridade permanente a uma família ou a uma corrente política. O nome reconhece uma contribuição histórica. Não transfere a propriedade da escola. Também não concede poder para controlar as decisões atuais da comunidade.
As famílias têm o direito de escolher
Não é correto afirmar que o modelo cívico-militar serve apenas para ensinar crianças pobres a obedecer. Escolas particulares também possuem regras, controle de frequência, cobrança de resultados e consequências para comportamentos inadequados. As famílias com maior renda podem escolher entre diferentes modelos educacionais. As famílias que dependem da escola pública também devem ter o direito de conhecer e avaliar alternativas.
Impedir o debate porque alguns acreditam que os pais escolherão o modelo errado é uma forma de desrespeitar essas famílias. A proposta não deve ser imposta. Também não deve ser proibida antes da conclusão dos estudos. A comunidade precisa saber quanto o projeto custará, quais serão as atribuições dos militares e como a autonomia dos professores será preservada. Depois disso, deverá decidir por meio de uma consulta democrática.
A escola cívico-militar não deve ser apresentada como solução para todos os problemas da Educação. Também não pode ser condenada antes de ser estudada e avaliada. Se o projeto avançar, deverá ter metas, fiscalização e avaliações periódicas. Se não melhorar a frequência, a convivência e a aprendizagem, poderá ser encerrado. Se produzir bons resultados e receber o apoio da comunidade, deverá ser mantido.
A decisão não pertence a uma família, a um sindicato, ao governo ou a um partido. A decisão pertence à comunidade escolar. Se a maioria rejeitar o modelo, o resultado deverá ser respeitado. Se a maioria aprovar a implantação, essa escolha também precisará ser respeitada.
Se o nome Fidel Zanchetta for transformado em argumento para impedir a manifestação da comunidade, reforço, então mudemos o nome da escola. Uma homenagem do passado não pode se tornar um veto às decisões democráticas do presente.




