POLÍTICA

A megalomania dos 20 mil empregos em parque logístico em Cachoeirinha

Projeção de 8 mil vagas diretas e 12 mil indiretas exige densidade de polo de e-commerce. Com o uso informado para os primeiros galpões, logística e armazenagem, os parâmetros do setor indicam menos da metade das vagas diretas anunciadas

Cachoeirinha – Os 20 mil empregos projetados para o parque logístico em Cachoeirinha, sendo 8 mil diretos e 12 mil indiretos, pressupõem que a área logística do complexo seja ocupada integralmente por operações de comércio eletrônico com separação manual de pacotes, no padrão de Cajamar (SP), maior polo de e-commerce do país. Os dois primeiros galpões, porém, são destinados a “operações de logística e armazenagem”, segundo o comunicado do empreendimento.

Pelos parâmetros de densidade usados no mercado de galpões, os cerca de 365 mil m² destinados à logística comportam entre 2,4 mil e 3,7 mil empregos diretos em armazenagem convencional, ou seja, de 30% a 46% dos 8 mil projetados. Na cadeia indireta, a maior parte das 12 mil vagas tende a ser absorvida por prestadores de serviço que já atuam na região, sem contratações novas na mesma proporção.

A prefeitura concedeu a Licença de Instalação para o parque, empreendimento do BRL VI Fundo de Investimento Imobiliário, gerido pela Guardian Gestora, às margens da ERS-118, no Distrito Industrial, a cerca de 20 quilômetros de Porto Alegre. O projeto prevê 384,5 mil m² de área construída, em seis fases, e investimento de até R$ 1 bilhão.

A implantação começa pelos galpões do BRL VI. O projeto previa inicialmente um galpão. O plano apresentado à prefeita Jussara Caçapava na sexta-feira (25) prevê dois, com mais de 200 mil m² de área construída e investimento da ordem de R$ 600 milhões. O canteiro de obras deve estar montado até 15 de outubro, e o primeiro galpão, concluído até março de 2028.

“Esse projeto representa um importante investimento para Cachoeirinha e reforça o potencial do nosso município para receber novos empreendimentos”, afirmou a prefeita.

Os números divulgados

ItemDado divulgado
Área construída384,5 mil m², em seis fases
Power Center comercial19 mil m²
Investimento totalAté R$ 1 bilhão
Galpões do BRL VI FIIDois, com mais de 200 mil m² e cerca de R$ 600 milhões
Uso dos galpões do BRL VIOperações de logística e armazenagem
Empregos nos galpões do BRL VIAté 4 mil postos fixos, somadas construção e operação
Empregos no projeto completo8 mil diretos e 12 mil indiretos
Primeiro galpãoConclusão prevista até março de 2028
Corredor ecológicoÁrea equivalente a 30% do empreendimento

Fontes: BRL VI FII, Guardian Gestora e Prefeitura de Cachoeirinha.

A conta da área

O mercado de galpões mede a intensidade de mão de obra pela densidade de ocupação: a área construída dividida pelo número de trabalhadores. Em operações de fulfillment, em que pacotes são separados e embalados manualmente, a média brasileira é de um trabalhador para cada 40 m² a 50 m². Na armazenagem tradicional, com empilhadeiras e paletes, é de um para cada 100 m² a 150 m².

Descontados os 19 mil m² do Power Center, o parque terá cerca de 365 mil m² para logística. Os 8 mil empregos diretos resultam em 46 m² por vaga, a mesma faixa de Cajamar.

Perfil de operaçãoÁrea por trabalhadorEmpregos diretos no parque (365 mil m²)Empregos diretos nos galpões do BRL VI (200 mil m²)
Fulfillment (e-commerce)40 a 50 m²7,3 mil a 9,1 mil4 mil a 5 mil
Armazenagem tradicional100 a 150 m²2,4 mil a 3,7 mil1,3 mil a 2 mil

Cálculo com base nas áreas divulgadas e nos parâmetros de densidade do setor.

O mesmo descompasso aparece nos galpões do BRL VI. A estimativa de até 4 mil postos para mais de 200 mil m² equivale a 50 m² por vaga, densidade de e-commerce, e inclui empregos da construção. Para operações de logística e armazenagem, uso informado no comunicado, os parâmetros do setor indicam de 1,3 mil a 2 mil empregos na operação.

O que é um Power Center

Power Center é um centro comercial a céu aberto, formado por poucas lojas de grande porte, as chamadas lojas âncora, com estacionamento compartilhado. O formato costuma reunir atacarejos, home centers e redes de eletrodomésticos ou móveis, sem os corredores fechados de um shopping center.

No parque, os 19 mil m² do Power Center são destinados ao comércio, e não à logística. A área reduz o espaço disponível para galpões e altera o perfil de parte dos empregos do complexo.

O modelo Cajamar

Para sustentar 8 mil empregos diretos, 100% da área logística precisaria ser alugada para empresas de separação manual de pequenos pacotes (pick and pack) ou indústrias leves de montagem de kits. Galpões convencionais, que estocam bobinas, autopeças ou paletes fechados, operam com empilhadeiras ou robôs e geram poucos empregos por metro quadrado.

O modelo também exige operação 24 horas, sete dias por semana. Os 8 mil funcionários seriam divididos em três ou quatro turnos, com cerca de 2 mil pessoas por vez nos galpões. A concentração de centros de e-commerce em Cajamar se explica pelo mercado que o polo atende. Localizado na Região Metropolitana de São Paulo, o município abastece o maior mercado consumidor do país e boa parte do Sudeste, volume de pedidos que sustenta operações de separação manual em grande escala e em regime contínuo.

O Rio Grande do Sul e Santa Catarina, podendo se acrescentado o Paraná, não têm demanda de comércio eletrônico que comporte uma operação desse porte nos moldes de Cajamar. O Estado também não conta hoje com polo de e-commerce nessa escala.

Mão de obra

Cachoeirinha tem população estimada em cerca de 142 mil habitantes. Os 8 mil empregos diretos equivalem a 5,6% desse total, e os 20 mil diretos e indiretos, a 14%, contando crianças, idosos e quem já está empregado. A absorção desse contingente pela população economicamente ativa do município não é viável.

O recrutamento teria de ser regional, com trabalhadores de Gravataí, Canoas e da Zona Norte de Porto Alegre, transportados por frotas de ônibus fretados, como ocorre nos grandes polos industriais e logísticos de São Paulo e do Nordeste. Nesse modelo, parte das vagas e da renda gerada fica com moradores de outras cidades.

Infraestrutura

Uma operação com 8 mil trabalhadores diretos exige estrutura gigante:

  • Terminais e pátios para os ônibus fretados que buscam trabalhadores nas cidades vizinhas
  • Vestiários de grande porte, ambulatórios médicos e refeitórios capazes de alimentar milhares de pessoas por dia em janelas curtas de tempo
  • Capacidade viária para o fluxo de trabalhadores e de caminhões.

Segundo a prefeitura, as intervenções de acesso e circulação no entorno do parque ainda estão em avaliação.

Os 12 mil indiretos

A projeção de 12 mil empregos indiretos aplica um multiplicador de 1,5 vaga para cada posto direto, sobre a base de 8 mil. Se os empregos diretos ficarem no patamar da armazenagem tradicional, a própria conta dos indiretos diminui na mesma proporção.

Além disso, boa parte dessas vagas não representa contratações novas. Empresas de segurança patrimonial, lavanderias industriais e restaurantes corporativos que já operam na Região Metropolitana costumam realocar equipes ociosas ou atender a nova demanda com a estrutura existente. Há migração de contratos, e não expansão proporcional do quadro.

No transporte, caminhoneiros autônomos e transportadoras que já rodam o Estado apenas incluem o novo endereço em suas rotas. Para o mercado de trabalho gaúcho, o saldo líquido de vagas nesse segmento é próximo de zero.

As contratações novas na cadeia indireta se concentram em duas frentes: ampliação de escala, como a empresa de alimentação que precise contratar cozinheiros para atender o refeitório do complexo, e logística de última milha, com empresas locais de entrega criadas para atender o polo. O efeito predominante é de manutenção e atração de renda para fornecedores que já existem.

O que está previsto no curto prazo

O impacto mais imediato é fiscal. Para o projeto completo, as projeções indicam R$ 9 milhões em ISS durante a construção e de R$ 37 milhões a R$ 42 milhões em ITBI até o fim da implantação. Nos galpões do BRL VI, a estimativa é de R$ 5,4 milhões em ISS na obra, de R$ 22 milhões a R$ 25 milhões em ITBI com a comercialização dos imóveis e de R$ 3 milhões a R$ 3,6 milhões por ano em IPTU na operação.

Até a conclusão do primeiro galpão, prevista para março de 2028, as vagas geradas serão as da construção. O material divulgado não informa o cronograma das demais fases. As projeções de 8 mil empregos diretos e 12 mil indiretos consideram o parque concluído, com as seis fases implantadas. E pelos dados de mercado, somente se Cachoeirinha fosse transformada em um polo como Cajamar para atender o Sul do Brasil, algo impensável hoje porque não há demanda.

Opinião do repórter

A Guardian não usa dados irreais ao apresentar o seu projeto. Ela projeta o melhor dos cenários, mas não convence o mercado e quem entende o mínimo sobre como ele funciona. A projeção para um cenário econômico inexistente no Sul tem uma finalidade: fazer a Prefeitura se mexer para não atrasar o investimento. Todo mundo sabe, ou deveria, que investir no Rio Grande do Sul é uma guerra que precisa de muitas vitórias em batalhas travadas para superar a burocracia.

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