RS: mais de 70% dos municípios têm alto risco de pólio
Embora o Brasil esteja livre da circulação do poliovírus selvagem há décadas, o risco de reintrodução da doença ainda existe
Mais de 70% dos municípios do Rio Grande do Sul apresentam risco alto ou muito alto de reintrodução do poliovírus, segundo análise de risco referente a 2025. O cenário preocupa as autoridades de saúde, principalmente porque a cobertura vacinal contra a poliomielite permanece abaixo da meta de 95% estabelecida pelo Ministério da Saúde há mais de uma década.
Diante desse quadro, o governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual da Saúde (SES), reforça a importância da vacinação infantil. O alerta ganha destaque com a proximidade do Dia Mundial de Combate à Pólio, celebrado no sábado (24). Conhecida como paralisia infantil, a poliomielite é uma doença infecciosa que pode provocar paralisia permanente, sequelas incapacitantes e, nos casos mais graves, levar à morte. Embora o Brasil esteja livre da circulação do poliovírus selvagem desde 1989, a possibilidade de reintrodução permanece, já que o vírus continua circulando em algumas regiões do mundo.
A principal forma de prevenção é a vacinação. Por isso, a SES orienta pais e responsáveis a verificar a caderneta de vacinação das crianças e procurar uma unidade de saúde caso existam doses pendentes.
Cobertura vacinal continua abaixo da meta
O Ministério da Saúde recomenda que pelo menos 95% do público-alvo seja vacinado contra a poliomielite. No Rio Grande do Sul, esse índice não é alcançado há mais de dez anos. Apesar da recuperação observada após as quedas registradas durante a pandemia de covid-19, a cobertura permanece insuficiente para garantir a proteção coletiva necessária contra a doença.
Confira os índices registrados no Estado:
- 2026: 88,47% — dados parciais;
- 2025: 91,51%;
- 2024: 93,49%;
- 2023: 88,68%;
- 2022: 78,80%;
- 2021: 76,35%;
- 2020: 85,14%;
- 2019: 85,09%;
- 2018: 85,70%;
- 2017: 85,73%;
- 2016: 85,46%.
A baixa cobertura vacinal é um dos fatores que aumentam o risco de reintrodução do vírus. A avaliação de risco também considera aspectos como a vigilância epidemiológica, o acesso ao saneamento básico e a ocorrência de casos e surtos de doenças que podem ser prevenidas por vacinas.
Na análise referente a 2025, o Brasil foi classificado em situação de alto risco para a reintrodução do poliovírus. Atualmente, Afeganistão e Paquistão são os únicos países onde a transmissão endêmica do poliovírus selvagem persiste.
Vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS
O esquema de vacinação contra a poliomielite previsto no Programa Nacional de Imunizações é composto por cinco doses da vacina inativada poliomielite (VIP), aplicada por injeção.
O calendário inclui três doses iniciais e dois reforços:
- 2 meses: primeira dose;
- 4 meses: segunda dose;
- 6 meses: terceira dose;
- 15 meses: primeiro reforço;
- 4 anos: segundo reforço.
A segunda dose de reforço, aos 4 anos, foi introduzida em agosto de 2026. A vacina é disponibilizada gratuitamente nas unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS).
O calendário atual também representa uma mudança em relação às campanhas históricas, que popularizaram a vacina oral, conhecida como “gotinha”. A vacina oral não é mais utilizada na rotina de vacinação contra a poliomielite no Brasil.
Doença pode causar paralisia permanente
A poliomielite é causada pelo poliovírus e sua transmissão ocorre principalmente pela via fecal-oral, por meio de água e alimentos contaminados ou do contato com pessoas infectadas.
Muitas infecções não provocam sintomas ou apresentam manifestações leves, o que dificulta a identificação da circulação do vírus. Em alguns casos, porém, ele atinge o sistema nervoso central e pode comprometer os músculos responsáveis pelos movimentos e pela respiração.
A doença afeta principalmente crianças menores de cinco anos. Não existe cura para a poliomielite, e as sequelas motoras e respiratórias podem ser permanentes. A vacinação é considerada a medida mais eficaz para evitar a infecção e suas complicações.
Histórico de combate à pólio no Brasil
A vacinação em massa mudou o cenário da poliomielite no país. A imunização começou em 1961, com a introdução da vacina oral, e ganhou força em 1980, com a criação do Dia Nacional de Vacinação contra a Poliomielite.
Em 1986, o personagem Zé Gotinha foi criado para incentivar a participação da população nas campanhas e se tornou um dos principais símbolos da imunização no Brasil.No Rio Grande do Sul, o último caso registrado de poliomielite ocorreu em 1983, em Santa Maria. No Brasil, o último caso foi confirmado em 1989, em Sousa, na Paraíba. Nas Américas, o último registro ocorreu em 1992, no Peru.
Em 1994, o Brasil recebeu a certificação de país livre da circulação do poliovírus selvagem.
Vigilância busca identificar casos suspeitos
Além da vacinação, a vigilância epidemiológica é fundamental para detectar precocemente possíveis casos da doença. O monitoramento ocorre por meio da investigação de episódios de paralisia flácida aguda (PFA), caracterizada pela redução ou perda repentina da força muscular, acompanhada de flacidez e diminuição ou ausência dos reflexos. Embora a poliomielite possa provocar esse quadro, outras doenças também estão associadas aos sintomas, como a síndrome de Guillain-Barré, a mielite transversa, meningites virais e meningoencefalites.
Por esse motivo, todos os casos de PFA em menores de 15 anos devem ser investigados, independentemente da causa suspeita. O procedimento também é adotado para casos com suspeita de poliomielite em pessoas de qualquer idade. Após a notificação, os pacientes são acompanhados e passam por uma reavaliação cerca de 60 dias depois do início dos sintomas. A análise permite verificar a evolução clínica, identificar possíveis sequelas e investigar uma eventual relação com o poliovírus.
No Rio Grande do Sul, são investigados, em média, 22 casos de paralisia flácida aguda por ano. A Secretaria da Saúde reforça que manter a vacinação em dia é essencial para proteger as crianças e evitar que uma doença eliminada do país volte a circular.



