POLÍTICA

Entenda as seis frentes de ação para proteger Cachoeirinha de novas enchentes

Cidade está desprotegida e atual governo corre para recuperar o tempo perdido pelo governo cassado em janeiro desse ano

Cachoeirinha – Passados mais de dois anos da enchente histórica de maio de 2024, muitos moradores de Cachoeirinha ainda têm dúvidas sobre o que está sendo feito para evitar que a tragédia se repita. As ações atualmente em andamento envolvem diferentes esferas de governo, fontes de recursos e prazos distintos. Algumas medidas já estão sendo executadas, outras dependem de aprovação do Governo do Estado ou da União e há ainda projetos que serão financiados por meio de empréstimos autorizados pela Câmara de Vereadores. A proteção de Cachoeirinha ganhou força depois da cassação do prefeito Cristian Wasem, que, conforme a atual administração, pouco ou quase nada fez para preparar a cidade para novos eventos climáticos extremos.

A seguir, O Repórter apresenta um panorama das principais frentes de trabalho que estão sendo desenvolvidas pela Prefeitura de Cachoeirinha.

Frente 1: Recuperação das casas de bombas e elevação do dique

A primeira frente está relacionada aos recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), criado pelo Governo do Estado para financiar a recuperação de estruturas atingidas ou utilizadas na proteção contra enchentes.

Ainda na gestão do prefeito cassado Cristian Wasem, foi encaminhada ao Estado uma solicitação de aproximadamente R$ 140 milhões. Entretanto, conforme relatos apresentados pela Secretaria Extraordinária de Apoio à Reconstrução do Estado (SERG) e pelo atual Governo Municipal, os projetos foram considerados incompletos e os pedidos de complementação não teriam sido respondidos.


Ao assumir a Prefeitura, o governo de Jussara Caçapava iniciou um trabalho de reorganização técnica para reapresentar as demandas e buscar recursos para intervenções consideradas prioritárias.

Entre elas estão a recuperação e modernização das casas de bombas da Nilo Peçanha e da João Pessoa, incluindo a elevação de equipamentos e painéis elétricos para evitar que fiquem submersos durante cheias, além da elevação do dique existente.

Para acelerar o processo, a Prefeitura anunciou nesta semana a contratação, com recursos próprios, de uma empresa especializada para elaborar um anteprojeto técnico que apontará exatamente quais intervenções são necessárias.

Segundo a administração municipal, os recursos do Funrigs podem ser utilizados apenas em estruturas já existentes. Por isso, as casas de bombas e o dique se enquadram no programa.

Frente 2: Prolongamento do dique até Canoas

A segunda frente envolve uma obra de maior porte e que depende de outra fonte de financiamento.

Trata-se do prolongamento do dique de Cachoeirinha em direção a Canoas, projeto considerado estratégico para impedir que a água do Rio Gravataí alcance áreas urbanas da cidade em eventos extremos.

Essa obra integra o Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (FIRECE), programa federal administrado pela Caixa Econômica Federal.

O projeto faz parte de um conjunto de intervenções previstas para toda a bacia do Rio Gravataí, incluindo novos diques em Gravataí e a implantação de microbarragens para controle de cheias.

Conforme informações apresentadas durante a audiência pública realizada na Câmara de Vereadores, o anteprojeto do prolongamento do dique de Cachoeirinha deverá ficar pronto em aproximadamente 13 meses.

A previsão preliminar apresentada aos municípios é de início das obras em 2028 e conclusão em 2032.

Nesse caso, o papel da Prefeitura é acompanhar, fiscalizar, fornecer informações técnicas e pressionar os governos estadual e federal para que o cronograma seja cumprido.

Frente 3: Medidas emergenciais e paliativas

Enquanto as obras estruturais não saem do papel, a Prefeitura vem executando ações para minimizar os impactos das chuvas.

Uma delas é o hidrojateamento da rede de drenagem pluvial. Segundo integrantes do governo, a gestão anterior poderia ter solicitado recursos específicos para essa finalidade. Gravataí, por exemplo, recebeu aproximadamente R$ 13 milhões para ações de limpeza e recuperação da drenagem.

Sem esses recursos, a atual administração contratou uma empresa com verba própria para executar o serviço.

Antes do início do hidrojateamento, foi realizado um levantamento de aproximadamente 1.200 bocas de lobo localizadas nas áreas atingidas pela enchente de 2024.

Também foi executado um amplo trabalho de desassoreamento, alargamento e aprofundamento da calha do Arroio Passinhos para aumentar sua capacidade de vazão.

Outra medida anunciada é a aquisição de 300 big bags, grandes sacos que podem ser preenchidos com areia e argila para formar barreiras temporárias de contenção em situações emergenciais, especialmente no Parque da Matriz.

A solução já foi utilizada em Canoas durante a enchente de 2024.

Frente 4: Estrutura administrativa e prevenção

Uma das mudanças promovidas pelo atual governo foi a criação de uma estrutura permanente voltada para prevenção e resposta a desastres climáticos.

Entre as medidas adotadas estão a criação da Secretaria Municipal de Defesa Civil e Resiliência Climática, a autorização para contratação de dez profissionais, a instituição do Comitê Municipal de Governança e Resiliência Climática de Cachoeirinha e a atualização do Plano de Contingência do município.

Também foram criados o fundo municipal, o CNPJ específico e a conta bancária necessária para recebimento de recursos destinados à reconstrução e prevenção.

Paralelamente, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) conduz um projeto voltado ao mapeamento de riscos hidrológicos e à implantação de sistemas de alerta comunitário.

Outra iniciativa em desenvolvimento é um projeto-piloto de armadilha metálica de baixo custo para instalação em bocas de lobo. O dispositivo retém resíduos sólidos antes que eles cheguem à rede de drenagem, reduzindo obstruções e alagamentos.

O projeto reúne a Prefeitura, a AGEA, a Escola Senai, o Cesuca e a UFRGS.

Frente 5: Habitação e assistência às famílias atingidas

A quinta frente está relacionada ao atendimento das famílias afetadas pela enchente de 2024.

A principal ação é a participação de Cachoeirinha no programa Compra Assistida, vinculado ao Minha Casa, Minha Vida – Reconstrução, do Governo Federal.

Por meio da iniciativa, famílias que perderam suas moradias ou tiveram imóveis interditados recebem recursos para aquisição de casas novas ou usadas sem custos.

Dezenas de famílias já assinaram contratos e receberam as chaves dos novos imóveis.

Além disso, a Prefeitura mantém acompanhamento social e estuda novas medidas para atendimento das pessoas que ainda enfrentam consequências da enchente.

Frente 6: Novos projetos financiados com empréstimo de R$ 200 milhões

Há ainda uma sexta frente que contempla projetos sem fonte específica de recursos nos programas estaduais e federais atualmente disponíveis.

Na quinta-feira (12), a Câmara de Vereadores autorizou a prefeita Jussara Caçapava a contratar um financiamento de até R$ 200 milhões com garantia da União.

Parte desse valor deverá ser destinada a projetos de prevenção e resiliência contra cheias.

Entre os investimentos previstos estão sistemas de drenagem, reservatórios de amortecimento, elevação de estruturas críticas, contenção de áreas vulneráveis, monitoramento hidrológico e fortalecimento da Defesa Civil.

Segundo o Governo Municipal, os principais projetos dessa etapa deverão contemplar o Parque da Matriz e a região do Interior I, funcionando de forma complementar às obras financiadas pelo Funrigs.

A intenção é sincronizar as intervenções estaduais nas casas de bombas e no dique com investimentos municipais em contenções, drenagem e infraestrutura urbana, criando um sistema mais robusto de proteção contra enchentes para os próximos anos.

Embora muitas dessas ações ainda estejam em fase de projeto ou captação de recursos, a administração municipal sustenta que a estratégia atual é atuar simultaneamente em obras estruturais, medidas emergenciais, reorganização administrativa, assistência social e planejamento de longo prazo para reduzir a vulnerabilidade da cidade diante de novos eventos climáticos extremos.

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