Opinião: vereadores assumem paternidade de projetos de forma indevida
Dois casos chamam a atenção pelas manifestações feitas na Tribuna ignorando a iniciativa da prefeitura
Cachoeirinha – Não é de hoje que vereadores assumem a paternidade de projetos cuja iniciativa depende exclusivamente do Executivo. Há casos, como tapa-buracos, troca de lâmpadas, pavimentação de uma rua, que de fato eles realizam a pressão política para que a comunidade seja atendida. Há outros, contudo, que a realização passa longe do que fazem ou fizeram.
Na Sessão desta terça-feira (3) da Câmara de Vereadores, Claudine Silveira, deu a notícia de que Cachoeirinha foi selecionada pelo Governo do Estado para ter o Centro Dia para Pessoas Idosas, fato noticiado em detalhes pelo site oreporter.net. E agradeceu o apoio da prefeitura destacando que trabalhou incansavelmente para o Estado selecionar Cachoeirinha. A vereadora parecia emocionada.
Claudine chegou a divulgar um material para a imprensa com o seguinte conteúdo: “ A vereadora Claudine Silveira (PP) juntamente com o Deputado Joel Wilhelm, além de representantes do poder executivo, como o Prefeito Cristian Wasem, Vice-prefeito Delegado João Paulo e o Secretário de Cidadania e Assistência Social do município, Nerisson Oliveira, conduziram a inserção de Cachoeirinha no processo de seleção por meio de reuniões com o chefe da pasta de Desenvolvimento Social do estado, Beto Fantinel.”
O Estado realizou uma seleção com base nas manifestações de interesse dos municípios. Era necessário cumprir uma série de requisitos e preencher um formulário digital. Na Tribuna nesta terça, a vereadora chegou a dizer que as famílias poderiam deixar os idosos durante o dia no Centro pois ele funcionaria como se fosse uma creche. Não é nada disso.
Quando li o informe da parlamentar, eu fiquei imaginando a cena: Claudine, Wilhelm, Cristian, João Paulo e Nerisson na frente de um computador. Lá pelas tantas, Cristian e João Paulo trocaram tapas brigando e gritando. Cristian berrou: eu quero digitar um pouco também! João Paulo retrucou: não, depois da minha esposa, sou eu! Nerisson, apavorado, saiu correndo para chamar a Guarda Municipal. Claudine começou a chorar resmungando: “vocês vão estragar o meu projeto.” Já o deputado, pegou um copo d’água e sentou no canto da sala.
A gente ouve tanta coisa que só brincando para não se estressar. Outro caso foi protagonizado por outro parlamentar de primeiro mandato, Uilson Droppa. Ele se manifestou na Câmara como se fosse o autor do projeto piloto que ocorre nesta quinta-feira (5) no Jardim do Bosque. A prefeitura vai recolher resíduos que não podem ser descartados no sistema de coleta domiciliar e seletiva, como móveis velhos e colhões.
O vereador deu o nome de “Dia do Toca Fora” e ainda falou que havia uma parceria entre Executivo e Legislativo. Tudo errado. A prefeitura esclareceu que o projeto seguirá o exemplo de Porto Alegre, onde ocorre o Bota-Fora, mesmo nome escolhido para Cachoeirinha. E não há nenhuma parceria entre Executivo e Legislativo.
Aliás, nesse caso, eu poderia assumir a autoria. Desde que a prefeitura suspendeu a coleta de inertes e passou a usar containers, hoje em dia chamados de contentores, móveis velhos, colchões e sofás, entre outros materiais, passaram a ser descartados pelas ruas. Eu sugeri há muito tempo, falando diretamente com o secretário da época, copiar o projeto de Porto Alegre.
Nessa relação que há entre base aliada e Governo, é comum projetos serem realizados de forma que vereadores possam se aproveitar politicamente deles. No caso do Bota-Fora, o vereador foi convidado a participar pelo envolvimento que tem com a causa e o piloto vai iniciar no bairro que mais atua. O projeto, contudo, não é dele e nem teria como ser.
Então, o que os vereadores devem fazer? Devem ter noção do papel deles e saber do que estão falando. E só assumirem a paternidade de um projeto quando a iniciativa for realmente deles, quando realizarem uma articulação hercúlea. Não vale descobrir que algo está em estudo o que vai acontecer e apresentar um projeto indicativo para depois dizer se não fossem eles, não teria acontecido. Ou ainda saírem fazendo reuniões desnecessárias só para dizerem que só aconteceu porque estavam lá.
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