Meninas negam que mataram colega na Luiz de Camões
- Roque Lopes
As três estudantes acusadas de envolvimento na briga que provocou a morte da colega de aula Marta Gonçalves, 14 anos, na escola estadual Luiz de Camões, voltaram a negar que foram as responsáveis pelo estrangulamento da jovem. Elas foram ouvidas na tarde desta sexta-feira(10) pelo delegado titular da 1ª Delegacia de Polícia de Cachoeirinha, Leonel Baldasso, que decidiu chamar todos os alunos da turma, professores e funcionários para tentar esclarecer o caso.
Não houve acareação nesta sexta. Baldasso explica que achou melhor ouvir todos os depoimentos para depois, caso seja necessário, colocar as jovens frente a frente para tentar descobrir qual foi a responsável pela asfixia. Elas já haviam prestado depoimento na última quarta-feira (8), dia do crime, na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento de Gravataí (DPPA) e mantiveram as versões, segundo o delegado.
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Os depoimentos foram acompanhados pela promotora da Infância e da Juventude, Maria Rita Campos, e pelo promotor Criminal, Marcelo Bertolussi. O Conselho Tutelar também acompanhou a tarde de depoimentos. A primeira a falar foi a diretora da escola, Fani Drehmer, e saiu da delegacia sem conversar com a imprensa. Depois, as jovens, que chegaram na delegacia na companhia de familiares e de uma advogada, foram ouvidas separadamente.

Maria Rita explica que não é comum a promotoria participar da fase de inquérito na Delegacia, “mas dada a excepcionalidade do caso e o convite do delegado”, decidiu acompanhar os procedimentos. Já o promotor Marcelo disse que esteve presente para o caso de haver a responsabilização criminal de algum envolvido maior de 18 anos, o que não aconteceu.
Jovens estavam tranquilas durante os depoimentos
Segundo o delegado Baldasso, as meninas demonstram certa tranquilidade na narrativa dos fatos. Há algumas divergências, como quantos colegas estavam na sala durante a briga. “Nós vamos precisar ouvir mais pessoas porque até o momento tudo o que foi dito não bate com o resultado do laudo pericial. Ele mostra que a causa da morte foi o estrangulamento e ninguém morre desta forma caindo no chão”, afirma.
O motivo da briga entre das jovens não teria relação com namorados. “Uma teria chamado a outra de feia e começou a briga”, resume o delegado. Já o promotor acrescenta que uma quarta pessoa teria insinuado que alguém seria feia e Marta teria achado que ela era o alvo da indireta e acabou ocorrendo a briga com uma colega e depois as outras duas se envolveram. “Não chegou a acontecer uma discussão e partiram direto para a briga.” Baldasso destaca que o motivo das agressões foram “trocas de provocações comuns entre adolescentes”.
Meninas que brigaram têm 12 e 13 anos
Duas das meninas acusadas de se envolverem na briga têm 12 anos e a outra 13 anos. Elas, em tese, não teriam força física para estrangular a colega até a morte usando as mãos, mas podem ter usado um braço, um pé ou até mesmo uma cadeira, uma classe ou outro objeto para pressionarem o pescoço da vítima contra o chão. O laudo do Departamento Médico Legal aponta que chegou a ocorrer rompimento de músculos do pescoço de Marta, o que indica o uso de certa força. Ela foi encontrada convulsionando quando o primeiro professor entrou na sala. Uma técnica em enfermagem do posto de saúde Luiz de Camões, localizado ao lado da escola, foi chamada e logo depois chegou o SAMU. A jovem foi removida para o hospital Padre Jeremias, onde foi constatada a morte.
Baldasso começa a chamar na segunda-feira todos os colegas de Marta com base no caderno de presença. Depois vai convocar professores e funcionários que possam dar alguma informação. “Está tudo muito nebuloso ainda. Queremos colher mais informações. Parece que na hora da briga não havia professor na sala pois seria troca de turno. Precisamos esclarecer isso também”, destaca.
Prazo para concluir a investigação é de 30 dias
Ele tem um prazo de 30 dias para concluir o inquérito e fazer a remessa para a Justiça indiciando ou não as envolvidas. Com base no que ele concluir, o Ministério Público chamará novamente as meninas para novos depoimentos. Somente depois disso será decidido se alguma ou todas receberão alguma medida sócioeducativa, em decisão que cabe ao Judiciário. A pena mais severa é a internação pelo período de até três anos.

Marta morava em Porto Alegre e havia se mudado para Cachoeirinha, com a mãe, em dezembro do ano passado para cursar a 7ª série. A quarta-feira, Dia Internacional da Mulher, era o segundo dia de aula da jovem. Ela não tinha um relacionamento de amizade com nenhum colega de sala de aula.
Várias pessoas acompanharam a movimentação na delegacia
No lado de fora do pátio da delegacia, pelo menos 20 pessoas se aglomeraram nas proximidades do portão de acesso à delegacia para acompanhar a movimentação. A dona de casa Vera Regina da Rocha, 51 anos, tem duas filhas adolescentes. Uma de 13 e outra de 16 anos. “É um absurdo essa violência toda. Os pais têm certa responsabilidade nisso porque também precisam acompanhar mais de perto seus filhos. Graças a Deus eu não tenho nenhum problema com as minhas”, afirma.
“Por mais que ela (a Marta) tivesse feito algo, as outras não tinham o direito de tirar a vida dela. É uma barbaridade. Nada justifica esse crime”, diz a dona de casa Sheila de Abreu, 30 anos, que tem uma filha de 8 anos e um filho com 13. Para o aposentado Genésio Gonçalves dos Santos, 53 anos, tem uma neta de 10 anos e ressalta que a escola tem responsabilidade no ocorrido. “O que aconteceu é horrível. A gente não tem segurança mais nem dentro de uma sala de aula com crianças. A escola tem culpa nisso sim, porque a direção tem que estar sempre ativa para evitar esse tipo de coisa”, diz.


