Mães e a sobrecarga ampliada durante a quarentena - oreporter.net - Notícias de Cachoeirinha e Gravataí
Aline, com os filhos Enzo, Miguel e Pedro - Foto: Álbum Pessoal

Mães e a sobrecarga ampliada durante a quarentena

Com o acúmulo de atividades, incluindo as escolares, mulheres falam sobre a rotina, agora mais cansativa, com a pandemia

Cachoeirinha – Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2019, mulheres dedicam 18,5 horas diárias para suas ocupações, entre trabalho, afazeres domésticos e cuidados com a família, contra 10,5 horas dedicadas pelos homens. Com a chegada da quarentena esse tempo aumentou.

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Para a confeiteira, Aline Monteiro, 35 anos, moradora do bairro Jardim Betânia, lidar com toda essa carga não é fácil e precisa muita dedicação. Mãe do Pedro Henrique, 12 anos, Miguel, 09, e Enzo, 03, ela faz parte do grupo de 11 milhões de famílias no Brasil compostas por mães solo, segundo o IBGE, que não tem com quem compartilhar o trabalho dentro de casa, ainda mais agora, com o novo coronavírus.

“Toda segunda-feira a escola envia 10 atividades, via grupo de whatsapp. Meu filho Pedro, que está no sexto ano, é o que me toma mais tempo na ajuda com as matérias, por serem um pouco mais difíceis. Ele tem dificuldade em copiar, mas se sai super bem na escola, sempre com notas altas. O Miguel, que está no quarto ano, já se vira sozinho. E com o Enzo, que é autista, procuro sempre dar atividades pedagógicas pra ajudar no seu desenvolvimento”.

A rotina de Aline começa com a limpeza da casa e encaminhar as encomendas. Durante duas horas, na parte da tarde, fica em função das tarefas escolares, pois a escola fica em atendimento, via whatsapp, das 14h às 16h. “Para não acumular nada, procuro adiantar as encomendas de bolos de um dia para o outro e sempre marco a entrega para de tarde. Se não tivesse a minha profissão de confeiteira, onde posso trabalhar em casa, dificilmente conseguiria trabalhar fora , devido ao meu filho ser autista não verbal. Se não soubesse fazer bolos, provavelmente eu teria que me virar de outra maneira. Eles só têm a mim e tenho que me virar”, desabafa.

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Aline conta que aproveita as noites para brincar com os meninos. “Gostamos de jogar Uno, ver filme, e toda sexta rola a noite do pijama, compramos lanche, colocamos os colchões na sala e nos divertimos”.

Janaína, com o marido e seus dois filhos – Foto: Álbum Pessoal

Para a doceira Janaína Basso, 39 anos, mãe do adolescente Gabriel Basso Trevizan, 13, e da jovem Giovana Basso Trevizan, 20, o dia começa cedo. “Acordo às 7h30min, tomo café, e coloco roupa na máquina. O pessoal vai acordando, cada um com seus compromissos. Aí já vem almoço,roupa para estender, louça para lavar. Caso tenha encomenda, vou produzir. Paro tudo para ajudar meu filho com os deveres, sempre tem um problema, ou é algo que não entende, ou a internet que cai, ou está com fome”, diverte-se.

Também moradora do bairro Jardim Betânia, Janaína conta que, tanto o marido, Jacson Fernando Trevizan, 37, que trabalha como Uber, quanto a filha, que é adestradora de cães, continuam com suas atividades, mesmo na quarentena, tomando os cuidados necessários “Quando tenho encomenda, procuro deixar tudo adiantado, comida pronta, para ficar com a cozinha livre e poder produzir com calma, pois meus brigadeiros são todos pesados um por um”.

Janaína ressalta que consegue lidar de forma divertida e distribuir os afazeres entre a família para aliviar o estresse. “E daí é fulano limpa aqui, ciclano leva o lixo, e assim flui. Parece a família do filme Minha mãe é uma peça e, nesse caso, eu sou a Hermínia”, brinca, referindo-se a personagem principal. Mas a doceira salienta para o momento de relaxamento diário junto ao marido. “É quando sentamos e descansamos, tomando nosso chimarrão no final do dia. Esse momento é sagrado!”.

Psicóloga Simone Ourique – Foto: Álbum Pessoal

De acordo com a psicóloga transpessoal e consteladora, Simone Ourique, questões relacionadas a condição da mulher na nossa sociedade, com papéis duros e super exigentes, onde não há um contexto social e cultural, ou seja, um entorno que dê a sustentação que uma mulher precisa, principalmente quando ela é mãe, geram peso e um grande sentimento de culpa. “A pandemia acentua e evidencia essa situação de sobrecarga. O nível de exigência altíssimo, onde a mulher tem que dar conta de inúmeras situações, sendo casada ou não, gera uma grande ansiedade”.

Segundo a psicóloga, é importante que as mulheres, principalmente as que têm mais acesso ao conhecimento ou aos movimentos sociais, façam essa reflexão e possam apoiar aquelas que se encontram em situações mais graves. “A conscientização nos alivia de sentimentos misturados com pensamentos desordenados. Outra questão importante é ter consciência que a gente só pode dar conta da nossa vida. É preciso ter foco e não abraçar tudo. Enxergar além e perceber que está numa sociedade e num sistema familiar e buscar o apoio necessário nesses meios é fundamental”.

Segundo Simone, uma forma terapêutica de aliviar a tensão é a mulher poder proporcionar a si mesma, pequenas paradas durante o dia, para ficar em silêncio. “Se dar esse direito de sair do mundo, da rotina, para poder respirar. Essas paradas ao longo do dia, como uma meditação, que seja de apenas cinco minutos, traz a sensação de que o tempo para realizar as atividades é ampliado, o que ameniza a ansiedade sobre poder dar conta de tudo”, ensina.

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