Estado ignora hospital de campanha para indicadores que definem bandeiras - oreporter.net - Notícias de Cachoeirinha e Gravataí
Hospital de campanha tem oito UTIs - Foto: Prefeitura de Cachoeirinha/Divulgação

Estado ignora hospital de campanha para indicadores que definem bandeiras

Governo do Estado está priorizando a ampliação da estrutura de hospitais permanentes e só cogita usar os de campanha municipais se o sistema entrar em colapso

Cachoeirinha – O hospital de campanha montado no Ginásio da Fátima não está credenciado pela secretaria estadual da Saúde e os 63 leitos, sendo oito UTIs, não são considerados para efeitos da definição da cor da bandeira da Região Metropolitana dentro do sistema de Distanciamento Controlado. E esta não é uma particularidade de Cachoeirinha, já que em outros municípios ocorre o mesmo.

Publicidade

Os hospitais de campanha montados por prefeituras, entre elas a de Cachoeirinha, estão citados no Plano de Contingência Hospitalar – COVID-19,  Versão 12, 11 de junho deste ano, elaborado pela secretaria estadual da Saúde, como estruturas temporárias. O Plano de Contingência estabelece níveis para o Estado organizar os serviços hospitalares e a movimentação da rede para acesso dos pacientes aos serviços.

 “O Rio Grande do Sul é um estado que possui uma rede hospitalar bastante potente e organizada possuindo hospitais com leitos de UTI em todas as macrorregiões de saúde e, no Modelo de Distanciamento Controlado as regiões de saúde Covid-19 foram definidas tendo os leitos de UTI em todas elas e os municípios estivessem agrupados de acordo com a referência primária para estes leitos de UTI. Desta forma, o Estado considera a possibilidade de construção de hospitais de campanha apenas em situação de possibilidade iminente de colapso do sistema de saúde, situação esta que é acompanhada diariamente através do Sistema de Monitoramento de Leitos e semanalmente através dos indicadores do Modelo de Distanciamento Social”, diz o documento.

O plano lista hospitais de campanha montados por algumas prefeituras, destacando que “alguns municípios colocaram no seu planejamento esta estratégia de atendimento à população, logo, entendemos ser importante destacarmos estes estabelecimentos no Plano de Contingência Estadual”.

Publicidade

O uso destas estruturas municipais, contudo, ocorrerá somente no nível 4, quando ocorrerem mais de  três mil internações em leitos clínicos e de UTI com suspeita ou Covid-19 confirmado, representando um colapso no sistema. Conforme o documento,  a prioridade no momento é reforçar e ampliar a rede estadual. Para isso, constam no plano hospitais de retraguarda, entre eles o Padre Jeremias. Há uma previsão de montagem de seis UTIs, mas sem prazo.

O secretário municipal da Saúde, Dyego Matielo, destaca que a informação do Estado sobre o credenciamento está errada. Em live no Facebook ele criticou divulgações feitas em redes sociais colocando em dúvida o credenciamento da estrutura. Matielo ressalta que os leitos do hospital estão cadastrados no Sistema de Gerenciamento de Internações (Gerint).

A reportagem teve acesso ao cadastro dos leitos no Gerint. Nele, somente os leitos clínicos são apontados como sendo SUS e os de UTIs aparecem como leitos privados. “É mais um erro do Estado. Vamos ver o que aconteceu”, disse.

Segundo a assessoria da secretaria estadual da Saúde, o hospital de campanha de Cachoeirinha não está credenciado, assim como outros na Região Metropolitana. Isto ocorre porque o Estado entende que a estrutura da rede hospitalar estadual está apta para o enfrentamento da pandemia e que investimentos para ampliar o número de UTIs estão sendo feitos.

Vereador levanta questionamentos

O vereador Marco Barbosa levantou dúvidas sobre o hospital de campanha por não encontrar no site do Distanciamento Controlado dados sobre as internações. No sistema aparecem somente informações sobre o hospital Padre Jeremias. Conforme a assessoria de imprensa da secretaria estadual da Saúde, o lançamento dos dados é de responsabilidade dos hospitais e prefeituras e que os questionamentos deveriam ser direcionados a eles.

“Há muitas dúvidas em relação ao hospital de campanha. Investiram quase R$ 3 milhões e não há transparência nenhuma.  Existe até a suspeita de os respiradores serem da década de 80 com uma tecnologia já ultrapassada. Talvez tivesse sido melhor ter procurado o Padre Jeremias para montar uma estrutura e ter investido parte do dinheiro gasto em ações de conscientização da população”, ressalta Marco Barbosa.

Matielo afirma que uma aproximação com o hospital Padre Jeremias é complicada. “Ele não nos dá nenhum suporte e já encaminhados um pedido para assumirmos a gestão”, revela.

Hospital está sendo útil, afirma prefeito

O prefeito Miki Breier destaca que a estrutura está sendo útil mesmo sem a formalidade de credenciamento. “São questões burocráticas. Nós não queríamos esperar. Tem município que ficou esperando e não tem um respirador. Nós compramos no início exatamente porque uma semana depois os preços mais que dobraram. Então, a gente fez no momento correto, na nossa avaliação. Independentemente de regulação ou não, nós já salvamos vidas. Já teve gente que usou o respirador, usou nosso leito de UTI. Todos os dias tem alguém internado, pouca gente internada, graças a Deus. O hospital está cumprindo seu papel. A questão da regulação é burocrática que a gente pode resolver.  A informação que eu tinha é que tinha sido tudo encaminhado, não sabia que não tinha sido aprovado ou concluso o processo. O importante é que o hospital está ali funcionando e não vamos fechar. A tendência é termos ainda muitos casos de Covid pela frente e aí continuaremos preparados”, salienta.

Conforme a reportagem apurou, o fato de o hospital de campanha não estar credenciado pela secretaria estadual da Saúde, o que ocorre com outras estrutura sem outros municípios, não traz nenhum tipo de prejuízo para a população e ele está cumprindo a função de atender pacientes com suspeita ou comprovação de Covid.

Quando acontece de um paciente possuir outras doenças, requerendo um atendimento mais especializado, ele é removido para um hospital que tenha a estrutura necessária para tratá-las. Isto ocorre especialmente no caso de comorbidades, nome técnico para indicar mais de uma doença associada que podem ser agravadas devido à Covid-19.

O único prejuízo do não credenciamento é que o número de leitos disponíveis não é utilizado de forma direta para a definição da bandeira do Distanciamento Controlado, afetando toda a região e não apenas Cachoeirinha. Apesar disso, a estrutura acaba trazendo benefícios, de forma indireta, pois quando atende pacientes em nível local evita que eles sobrecarreguem a rede estadual.

A reportagem solicitou um posicionamento oficial do Governo do Estado sobre a desconsideração destes leitos, especialmente os de UTIs, e não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

A prefeitura de Cachoeirinha enviou uma nota à reportagem sobre as dúvidas que cercam o hospital de campanha e uma cópia de um ofício remetido ao Ministério da Saúde. O documento é datado de 19 de junho e foi remetido para a Coordenação Geral de Atenção Hospitalar e Domiciliar do Ministério da Saúde solicitando a “habilitação de leitos de Suporte Ventilatório Pulmonar para atendimento exclusivo no âmbito da emergência pela Covid-19”. Uma resposta ainda não chegou. Confira abaixo a nota:

Nota oficial da Prefeitura de Cachoeirinha:

O município de Cachoeirinha vem estruturando o conjunto de ações de combate ao novo Coronavírus, o COVID-19, seguindo os protocolos e regulamentos determinados pela Secretaria Estadual de Saúde (SES/RS) e pelo Ministério da Saúde (MS).

Neste sentido:

(1) promoção e do reforço das medidas de distanciamento social controlado;

(2) organização de serviço de teleacolhimento (com uso de aplicativo específico além dos telefones nas Unidades de Saúde) para que pacientes sintomáticos não precisem se deslocar sem necessidade pelo município;

(3) reorganização dos serviços de Atenção Primária à Saúde de modo a garantir a construção de espaços específicos fora das UBS (contêineres e tendas) em serviços com grande volume de população além de salas específicas para atendimentos de sintomáticos em Estratégias de Saúde da Família; e

(4) garantia de Enfermaria e Leitos de UTI através da construção de Hospital de Campanha (HC).

Sobre o Hospital de Campanha (HC) criado pelo município é importante esclarecer:

– Ele está cadastrado no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) desde 04/05/2020.

– No âmbito estadual, a SES/RS adota um software específico para o gerenciamento de internações, o GERINT. No Anexo II [relação dos leitos, não publicada com esta matéria], apresentamos o detalhamento dos leitos de enfermaria e de UTI cadastrados no sistema.

– Questionamentos sobre a situação do Hospital Padre Jeremias podem ser feitas para a instituição, que está sob gestão do Estado, mas cumpre aqui realizar uma importante diferenciação: o HPJ tem leitos permanentes, normatizados por portaria e legislação específica, inclusive com verba específica para isso. O HC, a seu turno, possui leitos provisórios.

– Sobre o questionamento acerca do credenciamento do Hospital de Campanha, em 21 de maio do corrente ano a Secretaria Municipal de Saúde solicitou informações ao Departamento de Assistência Hospitalar e Ambulatorial (DAHA) da SES/RS sobre o fluxo que deveria observado, tendo sido orientado a aguardar a publicação de normativa específica por parte do Ministério da Saúde (MS).

– Na data de 15/06 o Ministério da Saúde publicou no Diário Oficial a Portaria 1514/20, que normatiza os leitos do Hospital de Campanha.

– Em 19/06, a Secretaria de Saúde de Cachoeirinha formalizou a solicitação de credenciamento dos leitos do HC ao Ministério da Saúde, pelo Ofício 816/20.

– O município de Cachoeirinha tem formalizado nos recursos do distanciamento controlado o número de leitos disponíveis e o Hospital de Campanha como parte da estratégia de enfrentamento ao COVID-19, bem como seus indicadores.

Ofício enviado ao Ministério da Saúde

LEIA MAIS: hospital Padre Jeremias tem 15 respiradores e dois leitos Covid

Publicidade
Compartilhe essa notícia
error: Não autorizamos cópia do nosso conteúdo. Se você gostou, pode compartilhar nas redes sociais.