Cria de Cachoeirinha, Alisson é convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira
Atacante do Shakhtar Donetsk foi chamado por Carlo Ancelotti nesta quinta-feira; mãe relembra dificuldades, chuteiras emprestadas e a saída de casa aos 13 anos
Cachoeirinha – O atacante Alisson Santana, de 21 anos, natural de Cachoeirinha, foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira principal nesta quinta-feira (29). O jogador do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, é a surpresa na na lista do técnico Carlo Ancelotti para os amistosos contra Japão e Singapura, em novembro. A convocação marca uma nova etapa na trajetória iniciada nos campos da cidade, onde ele chegou a esperar outros meninos terminarem de jogar para conseguir uma chuteira emprestada.
O Brasil enfrentará o Japão em 14 de novembro, às 7h15, e Singapura no dia 17, às 7h, pelo horário de Brasília. Os dois jogos serão disputados no Estádio Nacional de Singapura e encerrarão os compromissos da Seleção em 2026.
Em Cachoeirinha, a notícia mobilizou a família. A mãe, Márcia Lopes, estava a caminho de casa quando soube que o filho havia sido chamado. Mais tarde, recebeu uma chamada de vídeo com Alisson e os irmãos, enquanto estava no mercado. Deixou o atendimento e saiu para a rua para participar da comemoração.
“Eu fico muito orgulhosa porque ele passou muito trabalho para chegar onde chegou. Lembro do tanto que ele ficou sozinho, das vezes em que deve ter ficado triste, do tanto que chorou e pensou em desistir. Mas sempre persistindo, correndo atrás do sonho dele”, afirmou.
Segundo Márcia, Alisson preferiu não acompanhar o anúncio da convocação. Concentrado com o Shakhtar em um hotel em Lviv, na Ucrânia, ficou no quarto e descobriu que estava na lista quando os companheiros começaram a bater à porta. Depois de comemorar com os jogadores, ligou para a família.
“Ele estava radiante. Fez uma chamada em grupo comigo e com os irmãos. Foi muita gritaria. Ele estava muito feliz, brincando com os irmãos e dividindo a alegria dele”, contou a mãe.
Infância em Cachoeirinha e chuteiras emprestadas
Criado na região da 28 de Outubro, na Vila Anair, Alisson cresceu em uma família com outros cinco irmãos. Márcia sustentava os filhos trabalhando como faxineira e nem sempre conseguia pagar o transporte para treinos e jogos ou comprar o material necessário para o futebol.
Em casa, o atacante e o irmão Pablo improvisavam bolas com meias e sacolas. Na escolinha do Cruzeiro, em Cachoeirinha, a falta de chuteiras não o impedia de ir ao campo: ele esperava surgir uma oportunidade para pegar um par emprestado.
“Às vezes ele ia sem, porque não tinha. Ia do mesmo jeito e ficava esperando alguém sair para emprestar a chuteira para ele jogar”, lembrou Márcia.
A mãe atribui a primeira chuteira do filho a Otoniel Gomes, hoje vereador de Cachoeirinha e pai de um dos colegas do jogador na escolinha. Segundo ela, Otoniel também ajudava com caronas para os treinos e campeonatos e participou da aproximação com o empresário que abriu caminho para a saída do município.
O futebol de Alisson, antes do campo, passou pelas quadras no Projeto Relíquias chegando a conquistar título no futsal. Ele seguiu pelas categorias de base da Ponte Preta e pela escolinha do Cruzeiro, em Cachoeirinha, antes da oportunidade em Santa Catarina. Aos 13 anos, ele deixou a cidade para jogar no Nação, em Joinville.
Do Nação ao profissional do Atlético-MG
A passagem por Joinville durou cerca de sete meses. O desempenho chamou a atenção de clubes e levou Alisson ao Atlético-MG. A mudança para Belo Horizonte ampliou a distância da família e deu sequência à formação do atacante.
No clube mineiro, destacou-se na base e foi o artilheiro da equipe no Campeonato Brasileiro Sub-17 de 2022. Depois de disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2023, passou a integrar o elenco profissional. A estreia ocorreu em 8 de julho daquele ano, contra o Corinthians, pelo Brasileirão, sob o comando de Luiz Felipe Scolari.
Em 2024, marcou seu primeiro gol pelo profissional diante do Tombense, no Campeonato Mineiro, competição que conquistou naquela temporada. Também se tornou o jogador mais jovem a começar uma partida como titular do Atlético na Libertadores, contra o Caracas, na Venezuela. Encerrou a passagem pelo Galo com 43 jogos e quatro gols, conforme o balanço divulgado pelo clube na transferência.
O padrasto, Ivair Raulino Gomes, conhecido em Cachoeirinha como Careca, acompanhou parte desse percurso. Ele começou o relacionamento com Márcia quando Alisson estava saindo para jogar em Santa Catarina. Mais tarde, o casal viveu por cerca de dois anos em Belo Horizonte, acompanhando a chegada do jovem ao futebol profissional.

Título com a base da Seleção e transferência para a Ucrânia
Antes da oportunidade na equipe principal do Brasil, Alisson já havia vestido a camisa da Seleção nas categorias de base. No início de 2025, integrou o grupo campeão do Sul-Americano Sub-20.
Em março daquele ano, foi contratado pelo Shakhtar Donetsk, com vínculo até 2030. Na época, o Atlético informou que a negociação representava a terceira maior venda de sua história.
No futebol ucraniano, o atacante ampliou sua participação no time. Até a convocação desta quinta-feira, acumulava 50 partidas pelo Shakhtar, com 11 gols e 14 assistências. Na temporada atual, eram 12 jogos, três gols e quatro passes para gol.
Para Careca, o desempenho vinha alimentando a expectativa de uma oportunidade na Seleção. “A gente já estava meio que esperando, porque ele está jogando muito”, afirmou.
Família acompanha rotina em meio à guerra
A carreira na Ucrânia também colocou a família diante da preocupação com a guerra. Segundo Careca, mesmo na região próxima à fronteira com a Polônia, onde Alisson vive, há alertas e registros de ataques.
Márcia passou cerca de dois meses e meio com o filho e retornou recentemente ao Brasil. Ela planeja embarcar novamente no dia 15, acompanhada de um dos irmãos do atleta. A família se reveza para fazer companhia a Alisson e ajudar na rotina, inclusive na alimentação.
O vínculo com Cachoeirinha permanece. Conforme o padrasto, o atacante voltou à cidade nas férias do meio do ano e manteve o costume de circular pelos lugares onde cresceu e encontrar pessoas próximas.
Agora, a família acompanha a possibilidade de vê-lo entrar em campo pela primeira vez com a Seleção principal. Entre a lembrança do menino que precisava de carona e chuteiras emprestadas e a convocação anunciada nesta quinta-feira, Márcia destaca a persistência do filho: “Sempre correndo atrás do sonho dele”.

