CACHOEIRINHA

Cidade ganha sua Casa de Cultura

  • Roque Lopes

O antigo casarão do Wilkens, construído pelo casal Carlos Antônio Wilkens e Olivia Baptista, que abrigou por muitos anos o primeiro armazém de secos e molhados de Cachoeirinha, deu lugar a Casa de Cultura Demósthenes Gonzalez, inaugurada no final da tarde deste sábado (28). O espaço localizado ao lado da ponte, com cerca de 1,5 mil metros quadrados, tem capacidade para abrigar 400 pessoas e lotou para cerimônia de inauguração. No seu amplo espaço, incluindo ainda uma área aberta, a Casa recebe a Mostra Difusão composta por trabalhos de artes visuais, como esculturas, pinturas, fotografias e uma instalação. Ela estará aberta a visitas até 20 de junho das 9 horas às 17 horas. A casa não vai abrir aos finais de semana.

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O local abrigará, no segundo piso, a secretaria municipal da Cultura. No térreo, há espaço de sobra para oficinas, exposições e apresentações artísticas. As características originais do prédio foram preservadas e a diretora de Cultura, Sonia Tonolher, pensa em fazer uma espécie de mini museu em um dos espaços. Duas mesas escolares antigas encontradas em depósito da Prefeitura já aguardam as companhias. Os discursos foram marcados por um chamamento para artistas e comunidade usarem a Casa e ainda foi destacado o fato de a Prefeitura, mesmo em época de crise, conseguir fazer o investimento.

O deputado federal José Stédile destacou que a cultura merece receber uma atenção diferenciada não valorizando apenas artistas já consagrados. Segundo ele, o Ministério da Cultura vinha destinando de forma elitista seus recursos deixando em segundo plano outros projetos com a mesma justificativa de sempre: não há verba. Stédile elogiou o prefeito Vicente Pires por ter feito a permuta da área já planejando fazer ali no antigo armazém a Casa de Cultura e destacou que Cachoeirinha se diferenciava por conseguia fazer investimentos até mesmo na área da cultura, deixando em segundo plano por muitos governantes. “Hoje (Sábado) eu conversava com um prefeito da região e ele lamentava não ter conseguido fazer uma única obra por causa da queda na arrecadação. Cachoeirinha está de parabéns por mais esta obra”, salientou.

Miki: Cultura é fundamental para o ser humano - Foto: Roque Lopes/oreporter.net
Miki: Cultura é fundamental para o ser humano – Foto: Roque Lopes/oreporter.net

Já o secretário estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social, o deputado estadual Miki Breier, disse que a Casa de Cultura “enche os olhos e o coração de ânimo”. Segundo ele, nesta época de crise, muitos optam pelo discurso, que qualifica de fácil, de que outras áreas são mais prioritárias do que a cultura para receberem investimentos. “Há um equívoco. A cultura é fundamental para a vida do ser humano”, sustentou. Depois dos discursos, que iniciaram com uma hora de atraso devido ao gerador alugado não ter funcionado, uma placa com o nome da Casa de Cultura foi descerrada.


Daniela, Diego, Daniel, Sérgio e Ana - Foto Roque Lopes/oreporter.net
Daniela, Diego, Daniel, Sérgio e Ana – Foto Roque Lopes/oreporter.net

Três dos quatro filhos e dois netos de Demósthenes Gonzalez prestigiaram a inauguração da Casa de Cultura. Jornalista, político, compositor e escritor, Demósthenes foi vereador, presidente da Câmara, presidente do Veranópolis e autor do hino do clube. O Primogênito Sérgio Gonzalez, 77 anos, morador de Porto Alegre, considerou a homenagem muito justa: “É uma homenagem a um homem de valor que sempre esteve envolvido com a cultura. Ele dedicou toda a sua vida mais aos outros e agora recebe este justo reconhecimento”, disse. Para outro filho, Daniel Gonzalez, 64 anos, morador de Cachoeirinha, a escolha do nome “é um reconhecimento da cidade a um homem que se dedicou muito à cultura”. Ana Maria, 66 anos, filha de Demósthenes, moradora de Xangrilá, também prestigiou a inauguração. Os netos Daniela e Diego também estiveram presentes.

Quem foi Demósthenes Gonzalez

Demósthenes Gonzalez, cujo nome batiza a Casa de Cultura de Cachoeirinha, faleceu em 2000, mas deixou raízes na cidade onde fez história como político – sua família ainda mora aqui. Porém, sua trajetória é marcada por grandes paixões que vão além da militância e perseguição política: o jornalismo, o ativismo social, a música e o futebol. Foi um homem inquieto e que “não esquentava banco”. Empreendedor e corajoso, seu ofício era viver, como ele mesmo definia. Por sua extensa carreira e seus inúmeros feitos, vamos dividir este perfil em duas partes: um onde mostra um pouco da sua trajetória como político, militante de esquerda e jornalista. Outra como compositor, escritor, boêmio e entusiasta da cultura. Demósthenes nasceu em 1914, no bairro Azenha, em Porto Alegre.

Político e jornalista

A atuação política de Demósthenes Gonzalez em Cachoeirinha aconteceu de 1968 a 1972, quando foi vereador na cidade e um dos primeiros presidentes da Câmara (1970-1972). Foi o mais votado, ao lado de Cláudio Camargo, “numa campanha arrebatada em que conduzimos Ruy Teixeira à Prefeitura e iniciamos a grande obra de implantação do Distrito Industrial”, contou em seu livro “Ofício de Viver”. Seus colegas na Câmara eram: Taylor Haussen, Francisco Rodrigues, Manoel Vitório Nunes, Osvaldo Correia e Inácio Thiele, Odil Lombardo, Raulino Oliveira, Lindomar Pacheco e Djalma da Silva. O interventor na época era Aury Oliveira, da ARENA, e ele, do MDB.

O mandato de vereador não tinha remuneração, mas ainda assim, guardou boas lembranças desta empreitada, como contou: “foi gratificante e belo exercer a vereança por quatro anos. O que consola é a oportunidade de servir, a conceituação de ser útil ao próximo. Foi uma experiência emocionante”.

Militante de esquerda em plena ditadura militar, passou alguns “perrengues” em sua atividade. Em 70, concorreu a Deputado Estadual e num comício no bairro Vista Alegre, onde estavam Alécio Goulart, João Satte, Ruy Teixeira, Lauro Rodrigues, Francisco José Rodrigues, Léo Riffel, o barraco onde estavam foi cercado por policiais fortemente armados. Ele, cuja especialidade era fugir da polícia, saiu pelos fundos e se embrenhou no mato. Conseguiu pegar uma carona e chegar à delegacia, onde ficou sabendo que a situação era bem complicada. Saiu para buscar o Deputado (na época) Pedro Simon, que o acompanhou à Cachoeirinha ao lado de Alceu Collares e Otávio Brochado da Rocha. No final, depois de muita conversa, todos foram libertados com a intervenção de Simon junto ao Chefe da Polícia. Da cidade que acolheu a ele e sua família, restaram as memórias e o título de Cidadão Emérito de Cachoeirinha. Outro fato pitoresco na cidade é que o hino do Grêmio Esportivo Veranópolis é de sua autoria.

Mas a vida de militante político começou cedo. Com 22 anos, tentou se alistar para participar da Guerra Civil Espanhola, sem sucesso, e já lutava contra o fascismo e o nazismo. Em 1934, com o falecimento da sua mãe, foi morar em São Paulo, onde foi preso e fugiu para o Rio de Janeiro. Lá, novamente, se envolveu em política e foi preso na Casa de Detenção, sendo encaminhado ao famoso presídio de Ilha Grande, onde ficou por 5 anos e conheceu o escritor Graciliano Ramos e Carlos Mariguela, além de outros líderes da revolução de 35. Ele contou que os jornalistas faziam campanha em favor de Olga Benário, esposa de Prestes, para que ela não fosse entregue à Gestapo. Por isso, foram presos na Ilha Grande pelo regime de Getúlio Vargas.

Com sua soltura, foi enviado à São Paulo, quando retomou a vida vendendo ações da Petrobrás. Mais uma vez, ficou sabendo que havia uma condenação contra ele e mais uma vez fugiu para o Rio, passando pelo Paraná, em 1941 e, depois, para Porto Alegre. Preso na capital gaúcha, foi conduzido à Casa de Correção.

Em 1954, após sua soltura, fundou a sucursal da Revista do Rádio na capital, veículo que ele mesmo havia ajudado a fundar anos antes e que era concorrente da revista “O Cruzeiro”, a mais importante da época. Em Porto Alegre trabalhou na rádio Farroupilha, Diário de Notícias e Correio do Povo.

Em 1964, com o país envolto em uma nova ditadura, desta vez com a deposição de Jango, ele teve que fugir às pressas. Na fuga, dormiu até num cemitério, sobre uma sepultura. Foi para Cachoeira do Sul, onde ficou escondido em um circo, o Grande Circo Terezinha. “A maior experiência socialista que tive na vida, além do coletivo da cadeia. Acho que se o mundo fosse um grande circo, não haveria tanta dor, tanta lágrima” contou no seu livro de memórias. De cidade em cidade, trabalhando no circo, chegou ao Chuí e ao Uruguai. Retornou à Porto Alegre depois de “acalmados os ânimos”.

Em 66, com o crescimento do movimento comunitário em POA e a atuação da Fracab – Federação das Associações de Bairros e Centros Comunitários, fundou o Jornal dos Bairros, para divulgar as ações culturais dos bairros e reivindicar suas pautas. A publicação circulou em Cachoeirinha e Gravataí na década de 70.

As constantes fugas dos regimes militares proporcionaram experiências nos principais rádios e jornais de Porto Alegre, Rio e São Paulo, entre outras cidades. Começou como “apanhador de bonecos”, que consistia em buscar fotos de falecidos para o obituário do jornal.

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Compositor, escritor e boêmio

Amigo de infância de Lupicínio Rodrigues com quem desfrutava a boemia da capital e a parceria em inúmeras canções, com ele viveu um fato inusitado: “foi de noite que tomei meu primeiro trago. E, engraçado, o bebi pela mão do Lupicínio Rodrigues, que depois se tornaria meu amigo, parceiro e compadre e a quem eu daria para beber o último trago.”

Sua convivência com Lupi na noite porto-alegrense e os projetos que desenvolveram juntos resultaram no livro “Roteiro de um boêmio,  vida e obra de Lupicínio Rodrigues” (1980). A obra virou um show, que estreou no Rio de Janeiro com o mesmo nome, estreada pelos cantores Jorge Goulart e Nora Ney. “Roteiro de um boêmio foi sucesso total e levou a música e a história de Lupicínio Rodrigues a um grande público que pouco conhecia do nosso grande autor”, lembrou ele.

Além deste e de “Ofício de Viver” (2000), em 1997 lançou “Rua Verde – Lições de Cárcere”, que lhe rendeu o Prêmio Açorianos de 98, “Sabedoria do Envelhecer” (1996), “O Colecionador de Anúncios” (1998) e “Teoria dos Contrários” de poemas e canções.

Durante os últimos 15 anos de vida, trabalhou como assessor de imprensa na Prefeitura de Porto Alegre, sempre mantendo a dedicação ao fomento cultural, por meio dos eventos que organizou, como a Vindima da Canção de Flores da Cunha, o espetáculo Estórias e Canções e o Festival Clave de Sol. O Clube dos Compositores, fundado por ele, Lupicínio Rodrigues, Glênio Peres, Tulio Piva e Alberto do Canto, entre outros, impulsionou a carreira de muitos jovens músicos.

Demósthenes tem mais de 200 composições gravadas por grandes intérpretes da música brasileira como Ademar Silva, Alda castro, Antônio Lemos, Demônios da Garoa, Gilberto Braga, Mary Terezinha, Teixeirinha, entre outros. Seu trabalho na Revista do Rádio, no Rio, lhe proporcionou entrevistar as maiores celebridades do cenário musical da época como Orlando Silva, Emilinha Borba, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Elisete Cardoso, Cauby Peixoto, Elis Regina, entre outros.

Em 66 a música e os bares efervesciam em Porto Alegre, quando fundou a Casa da Música, na Assis Brasil e, depois, o Recado, na Lima e Silva, fechado pela ditadura. Foi trabalhar no Chão de Estrelas, “a catedral da música”, de Adelaide Dias, onde recebeu os maiores artistas do Brasil como Paulo Gracindo, Clara Nunes, Maysa, Caetano Veloso, Jamelão, Hebe Camargo, Cauby Peixoto, Ângela Maria e centenas de outros.

Ganhou das mãos do Governador Brizola, no Teatro São Pedro, o troféu de melhor compositor do prêmio Os Melhores do Rádio, oferecido pela Revista TV.

Em suas memórias, não deixou de citar uma de suas paixões e suas pretensões em ser jogador de futebol. Chegou a atuar no Americano e no Internacional, mas se aposentou no João Alfredo FC. Apesar disso, era gremista. (Fonte; PMC)

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