El-Niño: Cachoeirinha tem 12 mil pessoas em 13 zonas de risco alto ou muito alto de cheias
Defesa Civil do Estado fez recomendações para que a Prefeitura faça adequações no Plano de Contigência
Cachoeirinha – Cerca de 12 mil moradores de Cachoeirinha vivem em 13 áreas classificadas com risco alto ou muito alto para desastres provocados por chuvas intensas, como inundações, enxurradas e erosão das margens de arroios. O dado consta na Análise Preliminar de Suscetibilidades e Vulnerabilidades entregue pelo Governo do Estado aos municípios prioritários da Região Metropolitana dentro do Programa Prepara RS, lançado na última quarta-feira (17) para preparar as cidades para os potenciais impactos de um novo episódio do fenômeno El Niño.
Cachoeirinha está entre os 25 municípios contemplados pelo estudo. A reportagem solicitou na quinta-feira (18) e na primeira hora da manhã dessa sexta-feira (19) uma cópia do documento à Secretaria Municipal de Defesa Civil e Resiliência Climática, comandada por Alexandre Rossatto Braz, mas não recebeu resposta. A reportagem, então, recorreu à Subchefia de Proteção e Defesa Civil, vinculada à Casa Militar do Estado, que fez o envio em poucos minutos.
O levantamento identifica 13 áreas de risco, que somam 11.872 pessoas potencialmente expostas, número arredondado para cerca de 12 mil moradores. As situações de risco envolvem inundações pelo Rio Gravataí, transbordamento de arroios, enxurradas e processos de erosão de margens.
Plano de Contingência é considerado avançado, mas precisa de ajustes
Nas 23 páginas do documento, o Estado também avaliou o Plano de Contingência de Cachoeirinha. A conclusão é que o município possui grau de completude “Avançado”, a quarta melhor classificação entre seis níveis existentes. Acima dela estão apenas as categorias Superior e Referência, esta última considerada modelo para outros municípios.
Apesar da boa avaliação, os técnicos recomendam uma série de aperfeiçoamentos para tornar o plano mais eficiente em situações de emergência.
Entre as principais recomendações estão:
- inclusão de salas médicas nos abrigos previstos no plano;
- atualização dos dados demográficos;
- inclusão da estimativa de pessoas afetadas por cada cenário;
- definição mais clara das rotas de fuga;
- ampla divulgação do Plano de Contingência para a população;
- criação e fortalecimento dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil;
- realização periódica de simulados, treinamentos e audiências públicas.
Segundo o documento, o engajamento da comunidade é considerado indispensável para garantir a eficácia das ações durante situações de emergência. A Defesa Civil de Cachoeirinha recebeu também a recomendação de dar ampla divulgação às ações para conhecimento da comunidade. Isso não vem sendo feito hoje.
Estudo reúne dados de diferentes áreas
O trabalho não cria um novo mapeamento de risco, mas reúne e atualiza informações já existentes para auxiliar o município no planejamento das ações preventivas.
A análise combina dados meteorológicos, hidrológicos, geológicos, sociais e históricos, utilizando informações do Serviço Geológico do Brasil (SGB), do Instituto de Geociências da UFRGS, dos mapas de manchas de inundação da Defesa Civil Estadual e de outros órgãos que integram o Sistema de Proteção e Defesa Civil. O objetivo é orientar decisões relacionadas à prevenção, mitigação, preparação e resposta a desastres.
Áreas de risco e número de pessoas expostas
| Localidade | Processo principal | Pessoas expostas* | Criticidade |
|---|---|---|---|
| Jardim do Bosque – Arroio Passinhos | Inundação, enxurrada e erosão de margens | 864 | Muito Alta |
| Rua Cipó, Bairro Meu Rincão | Inundação e erosão fluvial | 180 | Muito Alta |
| Estrada do Nazário, Bairro Meu Rincão | Inundação e erosão fluvial | 172 | Muito Alta |
| Beco da CORSAN – Arroio Águas Mortas | Inundação, enxurrada e erosão | 64 | Muito Alta |
| Rua Beira Rio, Bairro Olaria | Inundação recorrente | 28 | Muito Alta |
| Beco do Pontilhão, Distrito Industrial | Inundação, enxurrada e erosão de margem fluvial | 44 | Alta |
| Estrada Antônio José do Nascimento, Distrito Industrial | Inundação e erosão de margem fluvial | 32 | Alta |
| Loteamento Canarinho | Inundação | 100 | Alta |
| Vila Princesa Isabel | Inundação | 88 | Alta |
| Rua Flávio Cantanhede, Bairro Vila Silveira Martins | Inundação | 32 | Alta |
| Rua Nossa Senhora da Boa Viagem e Bairro Santo Ângelo | Inundação | 9.612 | Alta |
| Avenida Beira Rio, Bairro Carlos Antônio Wilkens | Inundação | 492 | Alta |
| Avenida Bonifácio Carvalho Bernardes, Estação Experimental do Arroz | Inundação | 164 | Alta |
* Número estimado de pessoas expostas conforme o levantamento apresentado.
Estado explica por que 2024 foi mais grave
O estudo também faz uma análise das condições meteorológicas que provocaram os principais eventos registrados entre 2023 e 2025. Segundo os técnicos, a transição da La Niña para um El Niño de forte intensidade, em 2023, favoreceu o aumento das chuvas e da umidade sobre o Rio Grande do Sul.
Em 2024, entretanto, os impactos foram muito maiores não apenas pela influência residual do El Niño, mas principalmente pela permanência de bloqueios atmosféricos e de frentes frias semiestacionárias, que mantiveram a chuva sobre o Estado durante vários dias consecutivos. Esse cenário levou aos acumulados extremos registrados em maio daquele ano.
Já em 2025, mesmo com o Oceano Pacífico em condição de neutralidade, eventos intensos continuaram ocorrendo devido à atuação de frentes frias, áreas de baixa pressão e sistemas convectivos, demonstrando que episódios severos podem ocorrer mesmo sem a presença de El Niño ou La Niña.
Quando a Defesa Civil deve elevar o nível de alerta
Para cada estágio, o estudo define áreas prioritárias e orienta a adoção de medidas preventivas pela Defesa Civil e demais órgãos municipais.
| Cenário | Condição esperada | Áreas prioritárias |
|---|
| Normal | Acumulados inferiores a 40–50 mm em 24 horas. | — |
| Atenção | Acumulados entre 80 e 120 mm em 24 horas ou previsão de chuvas persistentes. Possibilidade de alagamentos localizados e elevação dos arroios urbanos. | Jardim do Bosque; Bairro Meu Rincão (Rua Cipó); Bairro Meu Rincão (Estrada do Nazário). |
| Alerta | Acumulados superiores a 120 mm em 24 horas ou rápida elevação dos níveis do Rio Gravataí e dos arroios urbanos. Possibilidade de inundações, enxurradas e interrupção de acessos. | Jardim do Bosque; Bairro Meu Rincão (Rua Cipó); Bairro Meu Rincão (Estrada do Nazário); Beco da CORSAN – Arroio Águas Mortas; Rua Beira Rio – Bairro Olaria; Rua Nossa Senhora da Boa Viagem – Bairro Santo Ângelo. |
| Severo | Todas as áreas classificadas como Risco Muito Alto (R4) e Risco Alto (R3). | Todas as localidades enquadradas nas classes de risco Muito Alto e Alto. |
| Extremo | Acumulados superiores a 240 mm em 72 horas, com elevação dos níveis do Rio Gravataí e dos arroios urbanos. Possibilidade de inundações, enxurradas e interrupção de acessos. | Todo o município, com prioridade para as áreas de risco Muito Alto e Alto. |




