Sonhos viram pesadelos em novos loteamentos em Cachoeirinha – oreporter.net – Notícias de Cachoeirinha e Gravataí
Campo Belo tem previsão de quase 4 mil casas - Foto: Bolognesi

Sonhos viram pesadelos em novos loteamentos em Cachoeirinha

Campo Belo e arredores não têm escola, posto de saúde, policiamento, há falta de ônibus, água e iluminação pública, entre outras necessidades dos moradores

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Cachoeirinha – O sonho de muitas pessoas pela casa própria se transformou em um pesadelo em novos loteamentos em Cachoeirinha localizados na divisa com Canoas, distante de serviços públicos essenciais. No maior deles, o Campo Belo, da Bolognesi, o projeto prevê cerca de quatro mil casas. O número passa de cinco mil moradias com outros loteamentos e um condomínio fechado da Vasco Civita. A expectativa é de que a região terá em torno de 15 mil pessoas e cerca de nove mil já residiriam nos imóveis entregues pelas construtoras.

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Se no verão falta água, nas demais estações do ano os moradores sofrem com a falta de escola, posto de saúde, policiamento e poucos horários de ônibus. A sinalização das vias já se apagou, não tem limpeza nas ruas, a coleta seletiva não atende todas as vias e na fase cinco do Campo Belo não tem uma lâmpada de iluminação pública. Serviço de varriação e capina mais amplo só foi realizado uma vez na história do loteamento, ainda no governo Miki Breier.

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Na internet há vários anúncios de pessoas desiludidas que estão fazendo a chamada venda da chave, onde o financiamento permanece no seu nome. Elas não falam com medo de que a realidade da área atrapalhe a venda e dificulte a busca pela tranquilidade em outro local no qual a prefeitura dê atenção para as necessidades dos contribuintes.

Pela legislação atual em Cachoeirinha, as empresas podem projetar seus loteamentos destinando 5% das áreas para a instalação de serviços públicos. Os investimentos, contudo, devem ser feitos pela prefeitura e no orçamento de Cachoeirinha não há nenhuma previsão de um posto de saúde, escola ou creche para a região. Além disso, a legislação permite ruas estreitas por onde ônibus do transporte coletivo não conseguem passar. Não bastasse isso, as calçadas também são estreitas e onde passa ônibus é praticamente impossível a colocação de um abrigo devido, também, a casas geminadas.

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É um drama sem fim. “Nos venderam gato por lebre e sofremos com o abandono da prefeitura. Só de IPTU nós pagamos R$ 800 mil e não temos nenhum retorno em serviços”, aponta a presidente da associação de moradores, Cátia Siqueira. A entidade foi criada em fevereiro desse ano para pressionar o poder público a atender as necessidades do bairro. Conforme um levantamento realizada pela diretora a Bolognesi já entregou 2.472 unidades das quase quatro mil projetadas.

No dia 6 de abril, a diretoria se reuniu com o prefeito Cristian Wasem e com o vice, delegado João Paulo. O resultado foi decepcionante. “Nós chegamos a dizer que se o problema fosse dinheiro, nós poderíamos conseguir emendas parlamentares, mas o prefeito disse que não adiantava porque não tinha engenheiros para fazer os projetos, professores para colocar em uma escola e profissionais para o posto de saúde”, lamenta.

Como resultado da reunião, parte do bairro teve um dia de limpeza e a promessa da coleta seletiva cobrir toda a região e que não está acontecendo. Sobre a falta de iluminação pública, o prefeito explicou que está tudo trancada na Justiça. Dos quatro abrigos para paradas de ônibus, dois foram instalados e um deles a associação viabilizou. Eles, contudo, tiveram que ser reduzidos por causa das calçadas estreitas.

Cátia salienta que na comercialização do loteamento, muitos imaginavam que ele ficava em Canoas. “Hoje, imaginamos que quase 90% das pessoas usam os serviços públicos em Canoas devido ao abandono de Cachoeirinha. O prefeito nos disse que não tem dinheiro para investimentos e que vai fazer um empréstimo de R$ 80 milhões com a Caixa Econômica Federal para executar algumas obras. Para o bairro, dos investimentos que serão feitos, há somente a previsão de asfaltamento da ligação com a estrada do Nazário. São 310 metros de asfalto”, conta.

A diretoria da associação, além das reivindicações, deixou com o prefeito e vice alguns pedidos de informações, como qual foi a contrapartida negociada com a construtora para o projeto do loteamento ser aprovado e quais são as áreas destinadas à prefeitura para os equipamentos públicos. A associação vem estudando quais medidas poderá tomar para fazer com que a prefeitura atenta as necessidades dos moradores.

Áreas obrigatoriamente cedidas para a prefeitura – Imagem: projeto Bolognesi

Na internet, no site Petição Pública, há um abaixo-assinado com mais de 800 assinaturas mostrando os aspectos legais que a prefeitura não está respeitando. A reportagem não conseguiu identificar o autor. No texto, são solicitados creche, escola, posto de saúde e policiamento militar. Cátia afirma que abaixo-assinados já foram realizados vários, sem efeitos práticos.

A dona de casa, Fabiane Morais, 33 anos, descobriu por acaso o abaixo-assinado na Petição Pública quando começou a fazer pesquisa sobre o Campo Belo diante de tantos problemas que enfrenta. Assinou e compartilhou com vizinhos na esperança de que a prefeitura faça alguma coisa. Dos três filhos de Fabiane, dois estudam em Canoas em escola estadual. Ela perdeu o benefício da isenção integral da passagem de ônibus porque as escolas municipais de Canoas não podem aceitar alunos que moram em Cachoeirinha. “É muito difícil. Nós temos, por exemplo, mais ônibus de Canoas do que Cachoeirinha. Daqui, são duas linhas somente e que passam em poucas ruas”, reclama.

Fabiane tem um filho de cinco anos que estava em uma creche de Canoas, mas agora em casa com ela, que parou de trabalhar. Outro problema está na saúde. “É longe demais e eu continuo usando o endereço de Canoas. “Estamos jogados às traças”, lamenta, salientando que o marido sai quando ainda é noite para trabalhar e é obrigado a ir mais longe para achar uma parada de ônibus mais segura, onde, pelo menos, há um poste de iluminação pública.

O que diz a prefeitura

Por intermédio da assessoria de imprensa, a prefeitura de Cachoeirinha afirma que está buscando alternativas para atender os pedidos dos moradores. Confira, abaixo, a nota:

“O governo municipal recebeu uma comissão de moradores do bairro Campo Belo há cerca de um mês e ouviu suas demandas. As possibilidades para atender às necessidades do bairro estão sendo buscadas, sobretudo recursos federais para atender as demandas do Campo Belo e região. Algumas áreas também estão em estudo para receber estes equipamentos públicos, a fim de solucionar as carências do local. Quanto à instalação de um posto da Brigada Militar é uma atribuição do Governo do Estado. Nós, enquanto município, estamos trabalhando para ampliar a cobertura de câmeras de vigilância na cidade, sobretudo em bairros mais afastados como o Campo Belo. Além disso, fazendo patrulhamento, em parceria com a Brigada Militar, e atendimento sempre quando demandados”.

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