Recebi proposta para integrar suposta "rede das fake news" - oreporter.net - Notícias de Cachoeirinha e Gravataí

Recebi proposta para integrar suposta “rede das fake news”

Político de Gravataí fez consulta para a compra de um grupo de Gravataí do qual sou administrador. Ele explicou como funciona o esquema

Nesta coluna eu quero relatar o que aconteceu comigo e que tem relação com a denúncia feita pelo vereador de Gravataí, Dilamar Souza, ao Ministério Público, cuja representação tem o título de “Fake news, criação e administração de páginas, perfis falsos e propaganda eleitoral antecipada por via difusa”.

Pouco antes das 19 horas do último sábado, três dias antes de Dilamar protocolar sua denúncia, recebi um contato via Messenger. A pessoa queria meu número de telefone, que é público e está disponível no site. Forneci. Minutos depois toca o telefone. Expliquei a brincadeira que fiz ao responder a pergunta “Tudo bem?” seguida de um silêncio supulcral. Nada mais chato que receber uma mensagem como se a pessoa quisesse saber como você está na verdade e ficar aguardando uma resposta. Bom, isso é outro assunto.

O telefone tocou, atendi, e a conversa iniciou com ele explicando que há tempo queria conversar sobre um grupo que tenho no Facebook chamado Acorda Gravataí [Oficial]. Disse que queria comprá-lo para fazer parte de uma rede de páginas e grupos no RS. Eu poderia continuar como administrador, mas teria que adicionar ele ou um indicado para a mesma função.

A venda implicaria em eu não publicar no grupo nada de política sem ele autorizar. Eu receberia um valor em reais e teria ainda como “benefício” poder publicar e compartilhar conteúdos em toda a rede. Explicou que aposta muito nas redes sociais para sua campanha a deputado e que apoiava um candidato a prefeito opositor de Marco Alba.

Perguntei o que ele pagava para administradores de grupos. Disse que recentemente comprou um de Alvorada com 100 mil seguidores pagando R$ 800,00. A conversa foi avançando até que achei ser o momento de explicar ao cidadão que pela minha índole não faria parte de um negócio que viola os princípios democráticos. O tom de voz dele foi mudando e vendo que não conseguiria me comprar tentou encerrar a ligação duas vezes.

Eu fui explicando a ele que não concordava com este tipo de procedimento, que a página era democrática e aberta para qualquer cidadão expressar livremente sua opinião. E que ele sempre teria espaço na página e no site, assim como qualquer pessoa. Pelo tom de voz, entendi que não gostou.

Pois bem, três dias depois surge a denúncia feita por Dilamar. E eu fiquei pensando: imaginem se eu fosse uma pessoa disposta a fazer parte de esquemas como esse. Estaria todo enrolado.

Com o que parou no Ministério Público eu consegui ligar alguns pontos do que acontece nos bastidores e as pessoas não sabem. Em setembro do ano passado, o administrador de páginas em Gravataí, chamado de Odair Goulart, que seria pré-candidato a vereador, e que gosta de ameaçar todo mundo com processo (adoro processos, para deixar registrado para quem faz esse tipo de ameaça), copiou uma matéria que escrevi.

O cidadão recebeu uma notificação extrajudicial para excluí-la, pois eu como autor não havia autorizado, conforme determinada a Lei de Direito Autoral. A reação dele foi de extrema agressividade. Tudo está salvo. Ele me ofendeu e disse o que eu publicava tinha um alcance zero, uma demonstração clara de que só existe porque tem seguidores. Foi obrigado por lei a excluir a postagem.

Alguns meses se passaram. A página que tenho no Facebook era aberta para qualquer um publicar o que bem entendesse. E os pedidos de participação eram aprovados sem análise de quem eram as pessoas, até porque o volume era e continua sendo tão grande que torna isso inviável pelo tempo que consome. O conteúdo publicado é monitorado.

Há poucas semanas começaram a surgir no grupo postagens de pornografia e até pedofilia. Era um sábado também e recebi uma ligação de uma pessoa, sem se identificar, dizendo que iria me processar e registrar ocorrência policial. Disse uma série de impropérios num vocabulário chulo e eu, que recém tinha acordado da minha sesta, ouvia atentamente sem me preocupar. Quem não faz nada errado, não tem que temer processo e BO.

Pois em, perguntei quem era e do que se tratava. Ele se identificou como Odair, administrador de grupo chamado Acorda Gravataí. Fui verificar o que tinha acontecido e menos de cinco minutos antes do telefonema, havia uma postagem no grupo com um vídeo de pedofilia ocorrido na África, cujo homem foi preso.

Printer tudo e fui até a DPPA de Gravataí fazer o boletim de ocorrência. Estava fechada, tendo em vista as ações de enfrentamento do novo coronavírus. Fiz a ocorrência na Delegacia Online. Anexei a printer de vários perfis fakes.

Agora, com a denúncia de Dilamar, começo a ligar os pontos. Não afirmo que o senhor Odair seja integrante de um esquema orquestrado para destruir reputações e favorecer interesses escusos, pois esse tipo de conclusão somente as autoridades, como Ministério Público e Polícia Civil, podem chegar. Eu, contudo, não tenho como deixar de desconfiar que tudo parece fazer sentido.

Eu tenho uma tese e poucos acreditam: você pode manipular as pessoas em nível nacional e até estadual. Mas em nível local, não emplaca não. As pessoas se conhecem e o que vale é o olho no olho.

Não é de estranhar que Cachoeirinha figure na denúncia de Dilamar. Eu fui e sou alvo de postagens que atacam minha reputação. Administradores de páginas, que até nem podem ser classificados de ativistas de redes sociais, como faço, pois estes últimos são defensores de causas nobres, ao contrário deles, me atacam. Virou moda no Brasil atacar a imprensa.

Esta semana, ocorreu uma “denúncia” irresponsável e uma pessoa foi ameaçada de morte depois de um destes “ativistas” ter feito uma postagem distorcendo informações e manipulando seus seguidores. Ele publicou um pedido de desculpas, mas insistindo na inverdade. E se tivesse ocorrido um homicídio, um pedido de desculpas resolveria tudo?

Encerro esta coluna sugerindo que as pessoas não acreditem em tudo o que leem e ouvem em redes sociais. Há raras pessoas sérias e existem muito mais pessoas que te manipulam.

Atualizada – 23/05/2020 – 8h19min – Título anterior não estava adequado dando a entender que há uma rede quando na verdade existe uma denúncia a ser investigada.

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