Professora, açougueiro, gari … Como é o socorro a moradores de rua em Cachoeirinha
Reportagem acompanhou ações da secretaria de Cidadania e Assistência Social na noite desta terça-feira (1) no trabalho de busca ativa de moradores de rua para serem levados ao albergue

Cachoeirinha – Equipes da Secretaria de Cidadania e Assistência Social de Cachoeirinha intensificaram as ações de abordagem social durante a noite de terça-feira (1º), em razão das baixas temperaturas registradas na cidade. Os termômetros marcavam 5ºC, com sensação térmica de 3ºC. Desde o fim de maio, servidores percorrem diversos pontos do município convidando pessoas em situação de rua a pernoitarem no albergue municipal.
A ação contou com dois veículos e envolveu profissionais da secretaria, além do coordenador do albergue, André Rodrigues, e da educadora social, Cíntia Borges. Durante o trajeto, a equipe encontrou três homens entre 37 e 67 anos sob uma marquise no prédio da Secretaria Municipal de Saúde. Após a abordagem, aceitaram seguir para o albergue.
Entre os acolhidos, estava José, de 55 anos, ex-açougueiro, que relatou ter deixado a família e o trabalho em Alvorada. Disse que a decisão foi motivada pelo uso de álcool e por problemas de saúde. Outros dois homens, de 63 e 37 anos, também aceitaram o acolhimento, mencionando o uso de drogas e conflitos familiares como motivos para a atual condição.
Durante a segunda abordagem, a equipe recebeu uma denúncia sobre um homem dormindo em um imóvel desocupado próximo à Cesuca. Identificado como Josef, ele já era conhecido da equipe e aceitou ir para o albergue. Em seguida, outra denúncia levou os profissionais até o bairro Moradas do Bosque, onde encontraram dois homens dormindo sob marquises. Um deles estava embriagado, e o outro fumava crack. Ambos foram acolhidos.
Ainda na mesma noite, por volta das 23h40min, a equipe foi até o Hospital Padre Jeremias, onde encontrou uma mulher de cerca de 68 anos, que preferiu não se identificar, e Ivan Fiuza, de 58. Os dois estavam sentados na sala de espera. Ivan aceitou o acolhimento imediatamente. A mulher demonstrou resistência, mas também aceitou o convite. Durante o deslocamento até o albergue, Ivan relatou que foi funcionário da empresa de limpeza urbana Pioneira e que, após perder o emprego, passou a viver nas ruas. Contou que, com o apoio do albergue, retomou os estudos, concluiu o ensino médio e voltou a trabalhar. Após uma recaída no consumo de álcool, voltou a buscar acolhimento.

Ao chegar ao albergue, as pessoas passam por triagem com cadastro, revista pessoal realizada pela Guarda Municipal e consulta aos sistemas de segurança. Em seguida, recebem itens de higiene, tomam banho, vestem roupas limpas e jantam. Também podem assistir televisão ou descansar. Pela manhã, recebem café antes de serem liberadas.
Além das abordagens, o albergue também recebe pessoas em situação de rua a partir das 19h. Todas passam pelo mesmo processo de acolhimento. Foi o caso de Janaína Goulart, 37 anos, natural de Santa Maria. Professora de Educação Física, contou à reportagem que conheceu o mundo das ruas após uma decepção amorosa que a levou ao uso de drogas, especialmente à dependência da cocaína.
“Perdi tudo. Melhor dizendo: cheirei tudo. Tinha uma academia na cidade e ela se transformou em pó. De lá pra cá, a situação só piorava. Perdi amigos, conhecidos e familiares por causa das drogas. Tentei recomeçar em Santa Maria, mas a sociedade foi muito cruel comigo. Foi aí que resolvi vir para Porto Alegre, buscando um recomeço, deixando tudo para trás. Mas, chegando aqui, só encontrei decepções. Recaí, voltei a me drogar, vivi nas ruas, onde fui abusada e maltratada — até que conheci uma pessoa que me trouxe para o albergue.”

“Faz cinco dias que estou utilizando os serviços do albergue e só tenho a agradecer. Aqui encontrei afeto, respeito, apoio e uma mão que me ajuda a retomar a minha vida. Sei que muita gente tem uma ideia distorcida do albergue, mas aqui é como uma segunda família. Tudo o que a gente precisa, encontra neste lugar”, declarou a professora, que brincou: “Vou tirar uma foto para sair no jornal com o pessoal daqui.”
“É muito gratificante realizar esse trabalho. Nada é mais recompensador do que poder ajudar quem está precisando, especialmente nessas noites frias. Muitos pensam que o albergue é um depósito de pessoas, mas estão enganados. Aqui é como um coração de mãe: sempre cabe mais um. Cada pessoa tem uma história de vida, e não nos cabe julgá-la, mas sim orientá-la para que retome a convivência social. Num primeiro momento, oferecemos o básico e, em seguida, mostramos a rede de serviços disponíveis no município, no Estado e na federação. Receber um sorriso ou um simples ‘obrigado’ deles é o que nos dá motivação para continuar”, declarou a educadora social Cintia Borges.
A monitora do albergue e assistente social Cristiane Lacerda, que atua há 22 anos no local, relembra momentos marcantes — de um ex-usuário que a pediu em namoro até pessoas que retornaram apenas para contar que já estão morando em casa própria com suas famílias. “Isso é gratificante para nós e para quem frequenta o albergue. Esses relatos servem de exemplo motivacional. Se alguém conseguiu, outros também podem conseguir. Trabalhar aqui é um grande aprendizado. Amo o que faço.”

Para o coordenador André Rodrigues, trabalhar no albergue é uma constante lição de vida, do início ao fim de cada expediente. “Sempre aprendemos algo. Nunca saímos daqui com a bagagem vazia. É gratificante poder ajudar o próximo.” Sobre a rotina, ele explica que muitos recusam o acolhimento por conta das regras. “Como a população em situação de rua é muito itinerante, alguns relatam nas abordagens que evitam o albergue por acharem que há bagunça e brigas. Mas, ao chegar aqui, percebem que é um ambiente diferente.”
Atualmente, o espaço conta com 36 dormitórios, distribuídos em sete quartos, todos com ar-condicionado e ventiladores. O local também oferece lavanderia, refeitório, sala de TV, banheiros, armários individuais e biblioteca. “Além disso, damos todo o suporte necessário, com encaminhamentos para emissão de documentos, acesso à saúde, educação e aos serviços sociais”, explicou Rodrigues.
“O trabalho das nossas equipes é baseado em uma abordagem técnica, com foco no acolhimento e no respeito à dignidade das pessoas em situação de rua. Mesmo diante de recusas, os encaminhamentos têm sido efetivos, especialmente com a intensificação do frio. É importante destacar que o serviço funciona 24 horas por dia, garantindo que, a qualquer momento, alguém em situação de vulnerabilidade possa ser atendido. Nosso objetivo é oferecer apoio, proteção e acesso aos serviços públicos disponíveis no município”, afirmou o secretário de Cidadania e Assistência Social, Nerisson Oliveira.

“Desde que começamos as abordagens, nunca tivemos uma adesão como a desta terça-feira, com 10 pessoas aceitando pernoitar no albergue, o que representa um número significativo. Ao todo, 13 pessoas foram abordadas, sendo que três recusaram o acolhimento e uma foi presa após consulta ao sistema de segurança. O homem, de 37 anos, tinha um mandado de prisão em aberto por roubo e estupro, expedido em dezembro. Ele foi encaminhado à UPA Francisco de Medeiros para exames médicos e, em seguida, apresentado na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Gravataí”, afirmou André Rodrigues.




