POLÍCIA

Polícia apura fraude no transporte escolar em Gravataí e apreende 250 mil em Cachoeirinha

Polícia Civil investiga cinco empresas por possível combinação de propostas em contratos de Gravataí; empresário da Linlex foi preso

Gravataí – Uma operação da Polícia Civil contra suspeitas de fraude em licitações do transporte escolar de Gravataí apreendeu mais de R$ 250 mil em espécie nesta quarta-feira (16), em Cachoeirinha. O dinheiro foi encontrado na residência de um investigado ligado a uma das cinco empresas que, segundo a polícia, podem ter participado do esquema.

A investigação é conduzida pela Delegacia de Repressão à Lavagem de Dinheiro, vinculada ao Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap). A apuração começou a partir de apontamentos encaminhados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS).

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A operação cumpre duas prisões temporárias, 13 mandados de busca e apreensão, 12 ordens de sequestro de imóveis e oito mandados de apreensão de veículos vinculados aos investigados. As medidas judiciais abrangem Porto Alegre, Gravataí, Canoas, Cachoeirinha, Eldorado do Sul, Imbé, Capão da Canoa e Florianópolis, em Santa Catarina. Um dos empresários com prisão decretada é Everaldo Schussler, ligado à empresa Linlex. Conforme o delegado Guilherme Calderipe, ele foi preso na manhã desta quarta-feira em sua residência, em Gravataí. O segundo investigado com prisão temporária decretada não foi localizado porque está no Exterior.

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De acordo com a Polícia Civil, o grupo teria organizado um conluio empresarial para simular concorrência em procedimentos licitatórios, direcionar contratações e ocultar os verdadeiros beneficiários dos contratos firmados com o poder público. Empresas pertencentes ou vinculadas aos mesmos controladores teriam apresentado propostas em uma mesma licitação para criar a aparência de disputa.

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Ao todo, nove contratos firmados ao longo da última década são analisados. Os mais recentes foram celebrados em 2026, por meio de procedimentos de dispensa de licitação, e somam mais de R$ 15,6 milhões. “Se eu não me engano, o primeiro contrato apontado pelo Tribunal de Contas é de 2016. Ao todo, são nove contratos, sendo que alguns foram renovados por períodos de um ano. Os mais recentes são os de 2026, que, somados, passam de R$ 15,5 milhões”, afirmou Calderipe.

Polícia investiga relação entre empresas

Um dos elementos considerados pela investigação é o protesto realizado por motoristas em agosto, em frente à sede da Linlex, por causa de atrasos salariais. Atualmente, a empresa TopSul mantém contrato com o Município de Gravataí para a prestação do transporte escolar.

Segundo Calderipe, a manifestação pode ajudar a Polícia Civil a esclarecer a relação entre as empresas e identificar quem efetivamente contratava e remunerava os trabalhadores. “Os motoristas protestaram na sede da empresa que havia vencido os contratos até o ano passado, embora outra empresa esteja atualmente vinculada ao serviço em Gravataí. Vamos ouvir esses trabalhadores para identificar quem efetivamente os contratava e como funcionava essa relação. Existe a possibilidade de que os valores destinados ao pagamento dos funcionários não estivessem sendo repassados corretamente, o que também pode comprometer a continuidade dos serviços. Além disso, vamos analisar se houve uma redução artificial dos preços durante a licitação, seguida do descumprimento das obrigações contratuais. Todos esses aspectos serão investigados”, explicou.

Fotos: Polícia Civil/Divulgação

O diretor do Dercap, delegado Cassiano Cabral, afirmou que a operação pretende interromper o possível esquema, identificar irregularidades e buscar a recuperação de recursos públicos.“A operação realizada nesta quarta-feira tem como objetivo interromper um mecanismo que pode estar utilizando licitações apenas como uma formalidade. Nossa atuação é voltada à identificação das irregularidades, à responsabilização dos envolvidos e à proteção dos recursos públicos. Também trabalhamos para recuperar valores que possam ter sido desviados, inclusive por meio do bloqueio de bens dos investigados”, declarou.

Até o momento, de acordo com a Polícia Civil, não foram encontradas evidências do envolvimento de servidores públicos. A investigação continua para analisar documentos, equipamentos eletrônicos, veículos, imóveis e valores apreendidos durante a operação.

Contratos já haviam sido investigados

As empresas também apareceram em uma investigação anterior da Polícia Civil. A apuração foi iniciada depois que o TCE-RS apontou, em 2022, possíveis irregularidades em contratos do transporte escolar de Gravataí.

A documentação encaminhada pelo Tribunal indicava suspeitas de fraude em um dos pregões realizados pelo Município. Conforme a investigação, problemas semelhantes já haviam sido identificados em procedimentos anteriores. Em praticamente todos os pregões analisados pelo TCE-RS, a Linlex apareceu como vencedora. A exceção ocorreu em 2015, quando outra empresa venceu o certame. A investigação apontou, porém, que as duas empresas estariam ligadas ao mesmo grupo, apesar de utilizarem CNPJs diferentes.

Na apuração anterior, foram localizados e-mails que, segundo a polícia, indicavam uma possível combinação de preços entre empresários. Seis pessoas, entre elas Schussler, foram indiciadas na ocasião por suspeita de fraude em licitações. Os investigados terão direito à defesa durante o inquérito. As prisões e apreensões desta quarta-feira fazem parte da fase de coleta de provas e não representam condenação.

Prefeitura diz ser vítima de eventual fraude

Foto: Arquivo/oreporter.net

Procurada pelo site O Repórter, a Prefeitura de Gravataí informou que acompanha a operação e se considera vítima caso as suspeitas de fraude nos processos de contratação sejam confirmadas. O Município destacou que o transporte escolar é um serviço essencial para os estudantes da rede pública.

Segundo a nota oficial, a própria Prefeitura já havia identificado uma tentativa de fraude em um processo de contratação. A partir disso, solicitou a verificação dos endereços de IP utilizados no pregão eletrônico e encaminhou as informações aos órgãos responsáveis. A Procuradoria-Geral do Município também deverá adotar medidas administrativas para aprofundar a apuração.

A Prefeitura informou que pretende publicar ainda em setembro um novo edital para o transporte escolar. O documento está sendo elaborado com acompanhamento técnico do TCE-RS e deverá incluir mecanismos reforçados de controle e fiscalização.

As empresas suspeitas de envolvimento na fraude serão impedidas de participar do novo certame, conforme a administração municipal. A Prefeitura ressaltou que essa medida já estava prevista antes da operação e informou que a prestação do transporte escolar segue normalmente em Gravataí.

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