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Teste rápido sem agendamento pode ser feito no SAE

Opinião: Teste rápido de HIV é lento, um sofrimento

Quem precisa fazer os testes contra doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), como HIV e Sífilis, bem como os da Hepatite B e C, que também podem ser transmitidos por equipamentos contaminados, como alicate de cutículas, vai encontrar o serviço nas unidades de saúde em Cachoeirinha. O chamado teste rápido, anunciado em banners em todas as unidades, é gratuito e disponibilizado pelo SUS.

Fazer o exame, contudo, não é uma tarefa fácil e está longe de ser rápido como anunciado. É uma novela e exige muita paciência. A reportagem percorreu alguns postos na manhã desta terça-feira (22) para saber como o serviço é prestado. Na primeira, na Unidade Básica de Saúde Décio Martins Costa, no Jardim América, a informação na recepção foi de que a enfermeira está de férias e que estaria voltando essa semana para fazer agendamentos.

A segunda tentativa foi na Estratégia Saúde da Família, na Rua Amazonas, no bairro Vista Alegre. Havia mais de 20 pessoas na fila e para não atrapalhar ninguém, a consulta foi abortada pelo colunista/repórter. Dali, a reportagem se deslocou para a UBS CAIC Granja. Lá, o recepcionista informou que a enfermeira responsável estava de férias e que retornaria na tarde desta terça para fazer os agendamentos dos testes.

Dali, a reportagem entrou em contato por telefone com o Posto 24 horas. A atendente queria saber se a relação sexual tinha sido mantida nas últimas 62 horas (o correto são 72 horas). Se não tivesse ocorrido nesse tempo, não seria possível fazer os testes.

A reportagem decidiu ir até o 24 horas. Lá, apenas quatro pessoas na fila e a sala de espera vazia. Após a atendente ser informada sobre o desejo de ser realizado no teste rápido, ela solicitou nome, idade, endereço e telefone. O SUS orienta que não é necessário o paciente se identificar para os testes rápidos.

Passados poucos minutos, o repórter foi chamado para a triagem. A responsável pelo trabalho, ao lado de uma auxiliar, insistiu que seria necessário fazer um agendamento em um posto de saúde apesar de ser informada que a relação de risco tinha acontecido no domingo à noite, portanto dentro do prazo de 72 horas. Questionada, de forma insistente, se o exame poderia ser feito, disse que sim.

Poucos minutos depois da verificação de pressão e temperatura (termômetro digital moderno), o médico chamou. E ele não autorizou o exame rápido. Como forma de pressão, o médico foi informado que o paciente, no caso o repórter, tinha HPV e que seu médico solicitou os exames com brevidade. Mesmo assim, a resposta foi um não categórico.

Sem ninguém para atender na sequência, o médico foi prestativo. Foi até outro setor e voltou com o endereço e telefone do Serviço de Assistência Especializada (SAE), que funciona ao lado do posto Osvaldo Cruz. O repórter entrou em contato por telefone às 11h30min e foi informado que poderia fazer o teste na hora.

Apesar de os atendimentos serem suspensos no intervalo do meio-dia até as 13 horas, foi possível realizar os testes rápidos apesar de o repórter ter chegado ao local às 11h45min. Em todos os postos, o atendimento dos servidores foi muito bom. O fato de não realizarem os exames e de solicitarem a identificação, caso ocorrido no 24 horas, deve ser em função de orientação superior.

No SAE, com um excelente atendimento da equipe, especialmente da enfermeira, o resultado dos quatro testes saíram por volta da meia hora. É necessário aguardar 30 minutos para os reagentes funcionarem. A enfermeira deu orientações completas sobre as doenças após informar que todos os testes deram resultado negativo.

Testes deram resultado negativo

Um prazo quase inútil

O prazo de realização do teste rápido de até 72 horas após uma relação sexual é completamente inútil como exigência para um teste rápido, pois nele não vai aparecer absolutamente nada relativo ao contato sexual recente. As doenças precisam de um prazo para se manifestarem, chamado de incubação. No caso do vírus HIV, por exemplo, é necessário aguardar pelo menos 30 dias.

O prazo é útil, conforme o encontrado pela reportagem nos postos de saúde de Cachoeirinha, apenas para casos de estupros nos quais a vítima desconhece se o criminoso possui ou não alguma doença. Mas considerando essa particularidade, o exame não vai ser utilidade alguma. Dentro desse prazo de 72 horas é possível fazer a chamada Profilaxia Pós-Exposição, chamado de PEP. A vítima recebe um coquetel de medicamentos que pode evitar a contaminação por algum vírus.

Caso a pessoa tenha tido uma relação de risco sem preservativo ou caso ele tenha sido usado, mas se rompido ou escapado durante o ato, ela não vai conseguir fazer o teste rápido nas unidades de saúde no momento que procurar. O mesmo vale se resolver aproveitar um dia de folga no trabalho para colocar esses exames em dia. Vai cair no agendamento.

Além disso, quem recebeu a informação que pode estar com HIV e vir a desenvolver a AIDS, vai precisar conviver com o sofrimento de percorrer postos de saúde e ter que aguardar o dia agendado para fazer o teste, sem falar na meia hora inevitável de espera pelo resultado, tempo que os exames levam para ficarem prontos. Nas farmácias é possível encontrar um teste para HIV, mas o custo é alto ficando em torno dos R$ 75,00.

Não deveria existir prazo

Se Cachoeirinha quer ser um exemplo neste tipo de atendimento a pessoas que precisam dos testes rápidos, o prazo de 72 horas não deveria existir, mesmo que fosse uma orientação do Ministério da Saúde. O motivo é bem simples: Se a pessoa não possui nada, o exame rápido não vai mostrar resultado positivo depois de uma relação de risco.

Caso ela já possua HIV, Sífilis ou alguma das Hepatites, a PEP não vai ajudar em nada, pois a pessoa já está contaminada. Nessa situação, ela vai deve ser encaminhada para fazer o tratamento recomendado para cada doença que tiver.

O teste do serviço tido como rápido feito nesta terça, que na verdade é lento e vergonhoso, tem como objetivo mostrar para as autoridades municipais responsáveis pela área da saúde que determinadas normas são inúteis e só trazem sofrimento para quem realmente tem necessidade de respostas rápidas.