OPINIÃO: as lições de uma derrota anunciada - oreporter.net - Notícias de Cachoeirinha e Gravataí
Paulinho ergue o braço e vibra com a vitória na eleição da Mesa Diretora da Câmara - Foto: Roque Lopes/oreporter.net

OPINIÃO: as lições de uma derrota anunciada

Resultado da eleição para a presidência da Câmara de Cachoeirinha não é nenhuma surpresa

A derrota do Governo Miki/Maurício na eleição da presidência da Câmara de Vereadores, que somente oreporter.net antecipou, não aconteceu essa semana. Era uma derrota anunciada. E há meses. Depois da crise na tentativa de cassação, Miki conseguiu juntar alguns dos cacos e reconstruiu a maioria no Legislativo. Mas as emendas se romperam no primeiro solavanco.

A perda do apoio do Republicanos, de onde saiu o candidato vitorioso da noite desta sexta-feira (20), deu força para o desejo dos oposicionistas. E aí Paulinho da Farmácia, que era governista e mudou de lado, acabou com o sonho de Felisberto Xavier de voltar a ser presidente 20 anos depois.

É bom lembrar, que Paulinho foi o responsável por salvar o Governo Miki de ficar com apenas 3% do orçamento para mexer livremente no ano que vem. Foi dele a negociação para aumentar para 11%, condição imposta para apoiar a chapa de Edison Cordeiro.

É bom lembrar também que o acordo para o último ano da presidência do Legislativo previa a escolha do candidato entre as bancadas que ficaram de fora dos três primeiros anos. E o Republicanos levou três votos para indicar o presidente. O Governo foi quem atravessou a negociação.

O problema para o Governo nesta eleição é que ela deixou cicatrizes profundas. Os apoiadores voluntariosos, e desastrados, se encarregaram de unir como nunca os oposicionistas. Não se ameaça esposas e filhos. Não se faz pessoas adultas chorarem diante de uma promotora temendo pela morte de um familiar, como se fossem crianças. As ameaças, que a Polícia e o Ministério Público vão investigar, obviamente não partiram de ordens do Governo. Seria o fim.

Miki sempre destaca que o diálogo é uma marca da sua administração. Dialogar é compartilhar informações, ponderar, argumentar, falar e escutar. O que acontece na Câmara mostra que há uma falha nesta interlocução entre os dois poderes. O conceito de diálogo parece ser diferente do que deveria ser.

Vejo hoje dois grupos que querem o melhor para a cidade, mas estão travando uma batalha em um cabo de guerra para saber quem tem mais força. De um lado temos um Governo que não quer ceder por ter suas convicções. E do outro, um bloco oposicionista que cobra explicações para inúmeras situações.

Citando um exemplo, trago o caso do cancelamento da multa da Brasília Guaíba, de R$ 4 milhões. O Governo já explicou o que aconteceu, mas nunca mostrou os documentos, nunca deu explicações detalhadas para quem mais questiona. Afirma que mostrou para os vereadores da base, mas nem eles acreditaram, tanto que jamais um deles usou a Tribuna para defender a gestão de Miki de acusações.

Confesso que eu tentei fazer esse papel para produzir uma matéria para informar ao leitor. Todos foram solícitos, me explicaram tudo, mas jamais tive acesso aos documentos e ao detalhes prometidos. E ainda fui cobrado sobre a matéria. Mas como fazer?

Aqui está uma lição que essa eleição deixa: esse conceito de diálogo posto em prática fracassou. É preciso saber se comunicar e apresentar argumentos com documentos. Fatos com provas desarmam qualquer questionamento. Todo mundo sabe disso. Por que não usam?

Eu ainda vejo uma saída para a crise e entro na segunda lição: humildade. Eu tenho quase certeza que a oposição ainda tem esta capacidade e não vai querer prejudicar a cidade trancando a obra da Fernando Ferrari e ainda impedindo o zoneamento do Mato do Júlio. Mas aceitar uma área de quatro hectares em um banhado em Área de Preservação Permanente como pagamento de parte de dívida de IPTU é algo que pode beirar o absurdo. Preciso dizer isso, pois não sei quais são os argumentos, não vi documentos. Dizer apenas que ali poderá ser desenvolvido um projeto ambiental é muito vago. E como fracionar uma área cuja legislação não permite? Mas tem explicação, claro, mas onde elas estão?

Hoje o vereador Rubens Otávio citou na Tribuna o cálculo feito pelo oreporter.net sobre o total da dação em pagamento que chega aos R$ 35 milhões. Não há problema nenhum em ser tão alto este valor, desde que isso seja explicado. E aí a gente volta para a velha questão, a do diálogo. Onde ele anda mesmo? E a humildade?

A última lição que esta sexta deixa é que a radicalização prejudica todos. E neste caso, o maior prejudicado é a população. Tomo a liberdade de propor aqui um pacto entre oposição e situação pelo bem da cidade. Nesta batalha, não haverá vencedores e nem vencidos.

O que custa chamar uma audiência pública para discutir o zoneamento do Mato do Júlio e mostrar todos os estudos, os números, os detalhes? O que custa mostrar todos os documentos sobre o caso da Brasília Guaíba sobre a dita multa cancelada ou suspensa? O que custa o prefeito pedir para usar a Tribuna e levar lá todos os documentos? Alguém vai se sentir inferiorizado por fazer o que tem que ser feito para a cidade não ser prejudicada?

Muitos podem estranhar meu discurso pacificador e até achar ele bem ingênuo, como quem está no campo da batalha política. Os sensatos precisam compreender que não há outro caminho. Sei que 2020 é ano de eleição, que tem duas CPIs em andamento e uma cassação de mandato sendo desenhada, mas é possível e necessário colocar a cidade em primeiro plano. Se todos estão bem intencionados, repensem suas convicções. Tenho a certeza de que o eleitor vai saber valorizar isso.

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