Mais de 800 mulheres tiveram a oportunidade de romper o ciclo da violência em Cachoeirinha
O rompimento desse ciclo de violência é resultado do trabalho desenvolvido pelo Grupamento Mulheres Protegidas da Guarda Municipal de Cachoeirinha.
Cachoeirinha – Durante muito tempo, a violência doméstica permaneceu restrita ao ambiente familiar. O medo, as ameaças, a dependência financeira e a preocupação com os filhos fizeram com que muitas mulheres permanecessem por anos convivendo com seus agressores sem procurar ajuda.
Em Cachoeirinha, esse cenário passou a contar com um reforço em 2023, quando a Guarda Municipal criou o Grupamento Mulheres Protegidas, uma patrulha especializada voltada ao atendimento de mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. O município tornou-se o terceiro do Rio Grande do Sul a implantar esse modelo de atuação, inspirado na experiência de Estância Velha e, posteriormente, adotado por Pelotas.
Desde então, a equipe já realizou mais de 800 atendimentos e acompanha atualmente 85 mulheres que possuem medidas protetivas de urgência. O trabalho inclui acolhimento das vítimas, visitas periódicas, fiscalização do cumprimento das decisões judiciais, encaminhamentos à rede de proteção e monitoramento permanente dos casos.
À frente da equipe desde sua criação está a guarda municipal Gisele Peixoto, responsável pela implantação do grupamento. Segundo ela, o trabalho da patrulha começa quando a vítima pede ajuda, mas não termina com o registro da ocorrência. “Nosso trabalho começa quando a mulher pede ajuda, mas não termina quando ela registra a ocorrência. A partir desse momento iniciamos um acompanhamento para garantir que ela permaneça protegida, tenha acesso à rede de apoio e consiga reconstruir sua vida. Cada atendimento representa a oportunidade de interromper um ciclo de violência.”
Muito além da ocorrência policial
A atuação do Grupamento Mulheres Protegidas vai além do atendimento emergencial. Após a denúncia, a equipe acompanha as vítimas durante todo o processo, realizando visitas domiciliares, mantendo contato frequente com as mulheres, fiscalizando o cumprimento das medidas protetivas e trabalhando de forma integrada com a Polícia Civil, Brigada Militar, Ministério Público, Poder Judiciário, Secretaria Municipal da Saúde, assistência social e demais órgãos da rede de proteção.

Para Gisele Peixoto, esse acompanhamento contínuo é um dos principais diferenciais da patrulha. “Muitas mulheres chegam até nós acreditando que não existe saída. Com o apoio da rede de proteção, elas percebem que não estão sozinhas e começam a reconstruir suas vidas.”
Três histórias que marcaram a patrulha
Em três anos de atuação, centenas de ocorrências passaram pelo Grupamento Mulheres Protegidas. Algumas delas, segundo Gisele, demonstram o impacto do trabalho desenvolvido pela equipe.

Da violência à independência
Um dos casos começou na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Francisco de Medeiros Uma mulher venezuelana procurou atendimento médico apresentando lesões pelo corpo, chorando e demonstrando medo. O guarda municipal que realizava a segurança da unidade percebeu a situação e acionou imediatamente o Grupamento Mulheres Protegidas.
Quando chegou ao local, a equipe encontrou outra dificuldade: a barreira do idioma. “Ela falava outra língua e estava muito abalada. Aos poucos conseguimos nos comunicar por meio de gestos e algumas palavras. A partir dali iniciamos todo o atendimento.”
A mulher vivia com o companheiro e os filhos em uma residência em condições precárias, no bairro Granja Esperança. Após ser retirada do ambiente de violência, passou a receber acompanhamento da rede de proteção. Dias depois, durante uma visita ao local onde ela trabalhava, Gisele encontrou uma mulher completamente diferente daquela atendida na UPA. “Ela estava trabalhando, independente e reconstruindo sua vida. São momentos como esse que mostram a importância do trabalho realizado pela patrulha e por toda a rede de apoio.”
Um novo começo
Outro atendimento envolveu uma mulher que sofria agressões físicas e psicológicas praticadas pelo marido. Ela contou que já havia deixado a residência anteriormente, mas decidiu voltar acreditando que o companheiro mudaria de comportamento. A violência, no entanto, continuou. Após uma nova agressão, procurou ajuda. Ela e os filhos foram acolhidos, encaminhados para um local seguro e inseridos na rede de proteção.
Com acompanhamento psicológico, assistência social e apoio da Guarda Municipal, conseguiu emprego, conquistou independência financeira e mudou-se para outro estado. Hoje vive longe do agressor. “Ela percebeu que precisava mudar a própria história. Com o apoio da rede conseguiu reconstruir a vida e seguir um novo caminho.”
A violência também acontece entre familiares

O terceiro caso lembrado por Gisele envolve uma mulher de 74 anos, moradora da Vila Anair. Durante anos, ela sofreu ameaças do próprio filho, dependente químico, que exigia dinheiro e ameaçava agredi-la e destruir a residência.
Somente quando decidiu pedir ajuda foi possível interromper aquele ciclo. A idosa passou a receber acompanhamento da rede de proteção e o filho foi encaminhado para tratamento contra a dependência química. “Nem sempre o agressor é o companheiro. A violência doméstica também acontece entre familiares. O importante é que a vítima saiba que existe uma rede preparada para ajudá-la.”
A violência não escolhe vítimas
Com base nos atendimentos realizados pelo grupamento, um levantamento interno aponta que a maior parte das mulheres acompanhadas tem entre 27 e 46 anos. O estudo também mostra que a maioria das ocorrências está relacionada a relacionamentos afetivos envolvendo companheiros ou ex-companheiros, incluindo casos registrados em relações homoafetivas.
Segundo Gisele Peixoto, esses dados demonstram que a violência doméstica pode atingir qualquer mulher. “A violência não escolhe idade, profissão, religião, nacionalidade ou condição financeira. Ela pode acontecer em qualquer família. Por isso é fundamental denunciar e permitir que os órgãos de proteção façam o seu trabalho.”
Ela também destaca a importância da participação da comunidade. “Familiares, amigos e vizinhos não devem se omitir. Muitas vezes, uma denúncia representa a oportunidade de salvar uma vida.”
Como funciona o atendimento
Grande parte das ocorrências chega ao Grupamento Mulheres Protegidas por meio do telefone 153, da Guarda Municipal. Após o acionamento, a equipe se desloca até o local, realiza o acolhimento da vítima, avalia o risco e, quando necessário, retira a mulher do ambiente de violência. Em seguida, ela é encaminhada à Delegacia de Polícia para registro da ocorrência e solicitação da medida protetiva.

Nos casos de agressão física, a vítima também recebe atendimento médico. Depois disso, passa a integrar a rede municipal de proteção, recebendo acompanhamento da Guarda Municipal, assistência social, saúde e demais órgãos envolvidos. Quando o agressor reside na mesma casa, a equipe providencia um local seguro para a vítima até que a situação seja resolvida.
Mesmo após a concessão da medida protetiva, o acompanhamento continua por meio de visitas, contatos frequentes e fiscalização do cumprimento das decisões judiciais, tanto para a vitima e quanto os seus filhos
“Em briga de mulher se mete a colher”
Ao defender a participação da sociedade no enfrentamento da violência doméstica, Gisele afirma que antigos conceitos precisam ser superados. “Em briga de mulher se mete, sim, a colher. E, quando necessário, também as algemas no agressor. A violência doméstica é crime e precisa ser combatida.”
Ela acredita que a prevenção começa dentro de casa. “Sou mãe de um casal de filhos e sempre ensinei que ninguém tem o direito de agredir outra pessoa. O respeito começa dentro de casa e deve estar presente em todas as relações.”
Durante a entrevista, Gisele também revelou que já foi alvo de tentativa de intimidação por parte de um agressor. Depois que a patrulha auxiliou uma mulher a denunciar o ex-companheiro, o homem foi até a sede da Guarda Municipal para intimidá-la. “Ele foi até a porta do quartel para tentar me intimidar porque ajudamos a ex-esposa dele a romper o ciclo da violência. Isso apenas reforça a importância do nosso trabalho e mostra que estamos no caminho certo.”
Segundo a coordenadora, episódios como esse demonstram que a atuação do Grupamento Mulheres Protegidas vai muito além do atendimento de ocorrências. O objetivo é oferecer proteção, fortalecer a rede de apoio e garantir que cada mulher tenha condições de reconstruir sua vida com segurança.
Como denunciar
- Guarda Municipal de Cachoeirinha: 153
- Brigada Militar: 190
- Central de Atendimento à Mulher: 180
A denúncia pode ser feita pela própria vítima ou por qualquer pessoa que tenha conhecimento da situação de violência. Quanto mais cedo a rede de proteção for acionada, maiores são as chances de interromper o ciclo da violência e preservar vidas.





