EXCLUSIVO: vazou projeto do Mato do Júlio. Vereadores querem barrar e debater - oreporter.net - Notícias de Cachoeirinha e Gravataí
Estudo prevê edifícios na parte frontal do Mato do Júlio - Foto: Reprodução

EXCLUSIVO: vazou projeto do Mato do Júlio. Vereadores querem barrar e debater

Acordo histórico que está sendo costurado pela Prefeitura com herdeiros encontra obstáculo na Câmara que aprovou a criação de uma Frente Parlamentar

Cachoeirinha – O acordo histórico que está sendo negociado entre a Prefeitura e herdeiros da área conhecida como Mato do Júlio vai encontrar um obstáculo para avançar: a Câmara de Vereadores aprovou na noite desta terça-feira (20) um projeto de resolução criando a Frente Parlamentar para debater ações de desenvolvimento econômico e social de preservação do Mato do Júlio e da Casa dos Baptista.

O Governo bem que tentou barrar a criação da frente, mas em mais uma desafinada da base aliada, já qualificada de gelatinosa pelo vereador Rubens Otávio, os oposicionistas impuseram uma nova derrota e contaram com um apoio de última hora: o vereador Cristian Wasem, descontente com algumas posições do vice-prefeito Maurício Medeiros, seu colega de partido, votou pela criação da frente. O novo aliado do Governo, Manoel D’Ávila, em viagem, estava ausente e deixou de ajudar o Governo.

A votação terminou 8 a 7 para a oposição. Foram contra a criação da Frente os vereadores Luis Henrique Tino, Jussara Caçapava, João Tardeti, Edison Cordeiro, Felisberto Xavier, Deoclécio Melo e Paulinho da Farmácia.

Barbosa defende participação da sociedade no debate sobre o futuro do Mato do Júlio

A criação da frente foi proposta pelo vereador Marco Barbosa para trazer à tona os detalhes da negociação histórica que está em curso na prefeitura. O site oreporter.net teve acesso com exclusividade a uma parte do projeto apresentado pelos herdeiros para resolver o imbróglio que se arrasta há anos na Justiça.

O projeto prevê a construção de um empreendimento de alto padrão na área de 256 hectares. A frente para a Flores da Cunha teria edifícios com 11 andares e o restante do terreno seria destinado para a construção de casas de alto luxo. Cinco ruas cortariam o loteamento. O projeto que a reportagem teve acesso teria à frente a incorporadora e construtora Melnick Even, que se apresenta como líder em alto padrão no Rio Grande do Sul.

Toda a negociação prevê a preservação ambiental e a criação de um parque de 6,5 hectares no entorno da Casa dos Baptista, tombada no Governo passado. A dívida de R$ 23 milhões existente com a Prefeitura seria sanada através de uma troca pela área do Parque e também uma faixa de 60 metros por 1,2 quilômetro na margem da freeway para a abertura de uma avenida perimetral ligando a Papa João XXIII ao Parque da Matriz, criando uma alternativa para desafogar o trânsito intenso que a região terá a partir da inauguração das alças de acesso à freeway.

Casa dos Baptista seria o centro de um parque – Foto: Divulgação

O líder do Governo, Luis Henrique Tino, na discussão do projeto antes da votação, argumentou que o projeto que tramita na Prefeitura vem sendo analisado por todas as secretarias e conselhos municipais de forma que a legislação, incluindo a ambiental, seja respeitada. “Não existe nada sendo decidido a quatro paredes e tudo será aprovado por esta Casa. Essa Frente que é política e eleitoreira”, disse.

O projeto do Mato do Júlio, por exemplo, prevê alterações no Plano Diretor para a inclusão da área no zoneamento da cidade. A Câmara deverá discutir e aprovar essa mudança. A troca de parte da área do futuro parque e também da avenida perimetral pela dívida de IPTU também terá que ser aprovada pelos vereadores.

A manifestação de Tino esquentou o debate. “Estou pasma e chocada. É um absurdo o que foi dito até porque essa é a Casa do debate. Se está sendo discutido a um e dois anos de forma interna é pouco tempo. A sociedade civil organizada é que veio solicitar essa Frente. O Mato do Júlio é um pulmão que não pertence apenas a Cachoeirinha. Pertence ao estado”, defendeu a vereadora Jacqueline Ritter.

Alcides Gattini também criticou a tentativa da base governista de barrar a criação da Frente Parlamentar. “Esse projeto vital para a vida de Cachoeirinha. Eu fico abismado a ouvir que estejamos discutindo uma Frente Parlamentar tentando atrair votos. É muito ruim saber que alguns vereadores estão de cabresto. Infelizmente eu estou conhecendo o lado podre da política”, desabafou.

O Nelson Martini salientou que a Frente pretende ampliar o debate e o autor da proposta, Marco Barbosa, acrescentou que a intenção “não é de travar nada”. Ele ainda atacou Tino na parte mais quente das manifestações. Não deu aparte e disse que o líder de Governo não teve respeito ao dizer que a Frente tinha objetivos políticos e eleitoreiras. “É de estranhar muito que não se queira fazer debate. Está ocorrendo um debate a quatro paredes na Prefeitura. Agora apareceu um estudo feito pelos próprios proprietários. É o lobo cuidando do galinheiro”, criticou.

Rubens Otávio enfatizou que a Frente vai trazer a sociedade civil organizada para o debate sobre o futuro do Mato do Júlio. O vereador salientou que a Câmara nunca reprovou a criação de uma Frente Parlamentar da forma que a Governo articulou com sua base. “Nunca foi negada uma frente parlamentar que inclusive pode auxiliar naquilo que o Executivo demonstra inoperância e até incompetência. Será que essa Casa não pode contribuir? Político e eleitoreiro é um Governo com 160 cargos. Eleitoreiro é compartilhar esses cargos. De 160 passaram para 190 e mandaram ofício para cá pedindo antecipação de dinheiro.”

Felisberto Xavier saiu em defesa do Governo: “Falam como se alguém estivesse querendo detonar a cidade. Também estou triste com o debate dos meus colegas. O mais triste é ouvir eu tenho caráter porque não tenho cargo no Governo. O meu caráter não está vinculado a ter ou não espaço no Governo. A questão do Mato do Júlio precisa de cuidado. Porém, votar contra a Frente não é abrir mão de fiscalizar.”

Ibaru Rodrigues também criticou a mobilização da base governista. “Acredito que estamos chegando no fim dos tempos. Que vergonha discutir uma Frente Parlamentar. Vereador Tino, o que o senhor disse na Tribuna me leva a me envergonhar mais ainda de estar aqui hoje. Os vereadores vão aprovar a Frente porque é para ajudar o Governo e garantir que se cumpra todas as leis ambientais.”

O presidente da Federação das Entidades de Ornitologia do Rio Grande do Sul (Feors), Nelson Arrué, acompanhou os debates. Ele pretende fazer parta da Frente Parlamentar e argumentou que a questão do Mato do Júlio requer uma série de estudos que não podem ser de autoria dos herdeiros da área.

Uma das necessidades, segundo ele, é o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental, chamado de EIA RIMA. É um levantamento complexo que envolve uma análise de impactos sobre propriedades físicas, químicas e biológicas do Meio Ambiente. A primeira fase do EIA RIMA é o diagnóstico ambiental e todo o processo chega a prever até uma audiência pública para que a sociedade seja ouvida.

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