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Endividamento recorde assusta famílias e acende alerta para a economia

Alta dos juros, uso excessivo do cartão de crédito e queda da confiança do consumidor preocupam comércio e ampliam a inadimplência entre as famílias de menor renda

O aumento do endividamento das famílias brasileiras e a queda da confiança dos consumidores gaúchos desenham um cenário preocupante para a economia. Enquanto o percentual de famílias endividadas atingiu o maior nível da série histórica, impulsionado principalmente pelo uso do cartão de crédito, a intenção de consumo no Rio Grande do Sul renovou sua mínima histórica, indicando que o comércio deverá enfrentar um ambiente de vendas ainda mais desafiador nos próximos meses.

Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio, o quinto aumento mensal consecutivo e o maior índice desde o início da pesquisa. O cartão de crédito permanece como o principal responsável pelo comprometimento financeiro, sendo utilizado por 84,6% das famílias que possuem dívidas.

A situação é ainda mais delicada entre os consumidores de menor renda. Nas famílias que recebem até três salários mínimos, a inadimplência chegou a 38,6%, alta de 1,7 ponto percentual em apenas um mês. O resultado evidencia o impacto do crédito caro sobre quem possui menor capacidade financeira para absorver os juros cobrados em caso de atraso no pagamento das faturas.

Atualmente, o crédito rotativo do cartão registra juros de 428,3% ao ano, uma das maiores taxas do mercado, tornando a dívida cada vez mais difícil de ser quitada.


Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, o avanço do endividamento exige medidas que permitam aos consumidores reorganizar suas finanças.

“Essa sequência de aumentos atinge, principalmente, as famílias de menor poder aquisitivo, pela exposição às taxas decorrentes de atrasos em pagamentos. É preciso garantir que o consumidor possa renegociar essas dívidas e recuperar seu fôlego financeiro”, afirmou.

Número de famílias muito endividadas cresce

Outro indicador que reforça a deterioração do cenário é o aumento das famílias que se consideram muito endividadas. O percentual chegou a 17%, o maior registrado nos últimos 23 meses.

Ao mesmo tempo, a inadimplência geral alcançou 29,9%, refletindo o peso das parcelas sobre o orçamento doméstico.

Segundo o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, mesmo com a redução gradual da taxa básica de juros, os consumidores ainda enfrentam custos elevados para financiar suas dívidas.

“A configuração de curto prazo no orçamento doméstico empurrou a inadimplência geral para 29,9% em maio. Como as taxas de juros ao consumidor final reagem de forma lenta à redução da Selic, o custo de carregar essas dívidas consome o poder de compra”, analisou.

Apesar do cenário desfavorável, a pesquisa identificou alguns sinais de melhora. O percentual de famílias com dívidas de longo prazo aumentou para 33,3%, indicando alongamento dos pagamentos, enquanto o comprometimento médio da renda recuou ligeiramente para 29,3%.

Consumidor gaúcho está mais pessimista

No Rio Grande do Sul, o cenário também preocupa. A Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias Gaúchas (ICF-RS), divulgada pela Fecomércio-RS, registrou apenas 41,1 pontos em maio, renovando a menor marca da série histórica iniciada em 2010.

O indicador acumula quinze quedas consecutivas e permanece muito abaixo dos 100 pontos, nível considerado de neutralidade. Quanto mais distante desse patamar, maior é o pessimismo dos consumidores.

Os maiores recuos foram observados nos indicadores de acesso ao crédito, perspectiva de consumo, nível de consumo atual e situação atual do emprego, mostrando que as famílias estão mais cautelosas na hora de assumir novos compromissos financeiros.

Embora alguns componentes tenham apresentado leve recuperação, como momento para compra de bens duráveis, perspectiva profissional e avaliação da renda atual, todos continuam em níveis historicamente baixos.

Comércio enfrenta cenário desafiador

Para o presidente da Fecomércio-RS/Sesc/Senac e IFEP, Luiz Carlos Bohn, os juros elevados continuam sendo o principal fator de pressão sobre o consumo.

Segundo ele, mesmo com o mercado de trabalho apresentando relativa estabilidade e a renda das famílias permanecendo em níveis elevados, o custo do crédito reduz a capacidade de compra da população e dificulta a recuperação das vendas no comércio.

“O varejo segue em acomodação, e os resultados do ICF-RS reforçam o quadro desafiador às vendas. Consumidor cauteloso, disputa pelo orçamento das famílias, concorrência internacional, além da conjuntura econômica, são barreiras que precisam ser enfrentadas pelos empresários hoje, com estratégia”, afirmou.

A combinação entre endividamento recorde, inadimplência crescente e confiança em queda forma um cenário de atenção para a economia. Enquanto as famílias direcionam parcela cada vez maior da renda para o pagamento de dívidas, o consumo perde força, afetando diretamente o desempenho do comércio e retardando a recuperação da atividade econômica.

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