El Niño: 14,5 mil pessoas estão em seis áreas sujeitas a cheias em Gravataí
Estudo elaborado pelo Governo do Estado e entregue à Prefeitura mostra os pontos de maior risco para que haja preparação da Defesa Civil
Gravataí – Um levantamento elaborado pelo Governo do Estado aponta que cerca de 14,5 mil pessoas vivem em áreas sujeitas a cheias em seis regiões prioritárias de Gravataí, que concentram os maiores riscos de inundações, alagamentos urbanos, enxurradas e outros impactos provocados por eventos hidrometeorológicos extremos.
O dado integra a Análise Preliminar de Suscetibilidades e Vulnerabilidades, documento entregue aos municípios prioritários da Região Metropolitana dentro do Programa Prepara RS, lançado na última quarta-feira (17) com o objetivo de fortalecer a preparação das cidades para os impactos de um eventual novo episódio do fenômeno El Niño.
Gravataí está entre os 25 municípios contemplados pelo estudo, encaminhado à reportagem pela Subchefia de Proteção e Defesa Civil, vinculada à Casa Militar do Estado.
Segundo o documento, as áreas prioritárias foram definidas a partir das manchas de inundação registradas durante os eventos extremos de setembro de 2023 e maio de 2024, da Carta de Suscetibilidade do Serviço Geológico do Brasil (SGB), do histórico operacional da Defesa Civil Municipal e da influência do Rio Gravataí, dos arroios urbanos e das áreas úmidas do Complexo Banhado Grande.
O estudo destaca que os principais riscos em Gravataí estão associados aos processos hidrológicos, especialmente às inundações, alagamentos urbanos, enxurradas e aos efeitos de remanso hidráulico provocados pelo Rio Gravataí e pela rede de drenagem urbana.
Entre as regiões que exigem maior atenção durante períodos de chuva intensa estão Parque dos Anjos, Passo das Canoas e Vila Rica, devido à elevada exposição às cheias do Rio Gravataí. Também aparecem como prioritários os bairros Caça e Pesca e Novo Mundo, onde há combinação de inundações fluviais, alagamentos e enxurradas. Já a região de Morungava merece monitoramento específico por apresentar risco de processos erosivos e instabilidades em encostas durante períodos prolongados de precipitação.
Estudo explica diferenças entre os eventos de 2023, 2024 e 2025
O relatório também analisa os fatores meteorológicos que contribuíram para os eventos extremos registrados nos últimos anos.
Em 2023, a transição do fenômeno La Niña para um El Niño de forte intensidade aumentou a disponibilidade de umidade na atmosfera, favorecendo a atuação frequente de frentes frias e sistemas convectivos, principalmente no segundo semestre.
Já em 2024, o estudo aponta que os impactos foram ainda mais severos não apenas pela influência residual do El Niño, mas principalmente pela persistência de bloqueios atmosféricos e de frentes frias semi-estacionárias, que mantiveram chuva contínua durante vários dias. Essa configuração resultou nos acumulados extremos registrados em maio, quando o Rio Grande do Sul enfrentou a maior tragédia climática de sua história.
Em 2025, mesmo com a neutralidade do fenômeno ENSO, os eventos de chuva intensa continuaram ocorrendo devido à atuação de frentes frias, áreas de baixa pressão e instabilidades convectivas, demonstrando que a dinâmica atmosférica regional, por si só, pode provocar episódios severos de precipitação.
Plano de Contingência recebeu classificação “Avançado”
Além do diagnóstico das áreas de risco, o Estado avaliou o Plano de Contingência de Gravataí para desastres naturais.
O município recebeu grau de completude “Avançado”, a quarta melhor classificação entre os seis níveis existentes. Acima dela estão apenas as categorias Superior e Referência, esta última destinada a planos considerados modelo para outros municípios.
Apesar da boa avaliação, os técnicos apontaram melhorias que podem aumentar a eficiência do documento em futuras emergências.
Entre as recomendações estão a inclusão de estrutura para atendimento médico nos abrigos temporários, a incorporação de protocolos para acidentes tecnológicos, a definição de rotas de fuga e o fortalecimento da participação da comunidade na elaboração e atualização do plano.
Estado recomenda ampliar participação da população
O relatório também ressalta que a eficácia de um plano de contingência depende do conhecimento da população sobre os procedimentos previstos para situações de emergência.
Por isso, recomenda que o documento seja amplamente divulgado nos canais oficiais da Prefeitura e em outros meios de comunicação voltados às comunidades mais vulneráveis.
Os técnicos ainda sugerem o incentivo à criação e formalização dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nupdecs), além da realização periódica de simulados, treinamentos, audiências públicas e ações de educação comunitária, consideradas fundamentais para melhorar a resposta do município diante de futuros eventos climáticos extremos.
Áreas de risco e pessoas expostas
| Localidade | Processo Principal | Pessoas Expostas* | Criticidade |
|---|---|---|---|
| Parque dos Anjos | Inundação e alagamento urbano | 4.500 | Muito Alta |
| Passo das Canoas | Inundação fluvial | 3.500 | Muito Alta |
| Vila Rica | Inundação e alagamento urbano | 2.500 | Muito Alta |
| Caça e Pesca | Inundação e remanso hidráulico | 2.000 | Muito Alta |
| Novo Mundo | Inundação e enxurradas localizadas | 1.500 | Muito Alta |
| Morungava | Erosão e instabilidade pontual de encostas | 500 | Alta |
Quando a Defesa Civil deve elevar o nível de alerta
Para cada estágio, o estudo define áreas prioritárias e orienta a adoção de medidas preventivas pela Defesa Civil e demais órgãos municipais.
| Cenário | Condição Esperada | Áreas Prioritárias |
|---|---|---|
| Normal | Acumulados inferiores a 50 mm/24h e Rio Gravataí com níveis baixos. Monitoramento de rotina dos arroios urbanos e da planície fluvial. | — |
| Atenção | Acumulados entre 50 e 80 mm/24h ou elevação gradual do Rio Gravataí e dos arroios urbanos. Possibilidade de alagamentos localizados e aumento da vazão nas drenagens urbanas. | Parque dos Anjos, Passo das Canoas, Vila Rica, Novo Mundo e Caça e Pesca. |
| Alerta | Acumulados superiores a 100 mm/24h ou Rio Gravataí próximo da cota de extravasamento. Possibilidade de inundação em áreas baixas, sobrecarga do sistema de drenagem e interrupção parcial de vias. | Parque dos Anjos, Passo das Canoas, Vila Rica, Caça e Pesca, Novo Mundo e Morungava. |
| Severo | Acumulados superiores a 150 mm/72h, associados à saturação prévia do solo e elevação significativa do nível do Rio Gravataí (acima de 4,5 m). Possibilidade de inundações expressivas, alagamentos generalizados e impactos à infraestrutura urbana. | Todos os setores historicamente classificados como de risco, com atenção especial para Parque dos Anjos, Passo das Canoas, Vila Rica, Caça e Pesca, Novo Mundo, Centro e Morungava (atenção para instabilidades pontuais). |
| Extremo | Acumulados superiores a 250 mm/72h ou ocorrência de cheia regional na Bacia do Rio Gravataí, com influência do Complexo Banhado Grande. Possibilidade de inundação generalizada da planície fluvial, remanso hidráulico e necessidade de evacuação preventiva. | Todas as áreas de abrangência do município, incluindo bairros urbanos e rurais e as localidades rurais do município de Gravataí. |






