CACHOEIRINHA

Condutores escolares sofrem com falta de receita na pandemia

Sem acesso ao auxílio emergencial e nem a outras linhas de crédito, motoristas estão desamparados desde o início da quarentena

Cachoeirinha – Uma classe desamparada. Este é o desabafo dos condutores escolares que, desde o início da pandemia, encontram-se sem alternativas para manterem se quer os documentos dos veículos em dia, já que não têm como trabalhar e não obtiveram nenhum tipo de auxílio financeiro do Governo.

De acordo com o presidente da Associação dos Condutores Escolares de Cachoeirinha (ASCEC), Valdemar Belardinelli, há 30 anos no ramo e conhecido como Dudu, nem o acesso ao auxílio emergencial do Governo, foi possível à classe. “Como um dos requisitos era a declaração do importo de renda inferior a 28 mil reais, nós ficamos sem ter como requerer este amparo, pois a nossa declaração ultrapassa os 30 mil anuais, até para que possamos ter direito à financiamento na compra de veículo para trabalho”.

Dudu, com a filha Isadora e a esposa Gisele

Dudu ressalta que nem os outros programas de financiamento foram acessíveis aos condutores. “Nenhuma linha de crédito nos foi concedida e ficamos à ver navios. Os veículos estão com os impostos vencidos e os motoristas sem poder trabalhar. A associação está atrás de meios para conseguir alguma forma de financiamento, mas não estamos encontrando alternativas. Estamos abandonados”, desabafa. O preço de um veículo de transporte escolar custa em torno de R$ 200 mil e a maioria são financiados. “Muitos colegas já tiveram os veículos retomados pelo banco, pois o adiamento da dívida de financiamento era de apenas 90 dias e esse prazo já venceu”, frisa.


A ASCEC se organizou para conseguir auxiliar alguns condutores com cestas básicas. “Não conseguimos para todos, então fizemos uma seleção dos que se encontravam em uma situação mais delicada e estamos fornecendo alimento. É pouco, mas já é alguma coisa, pois estamos sem enxergar uma luz no fim do túnel”, conta o presidente da associação.

Há 10 anos como condutora de escolar, função que assumiu após o falecimento do pai, Aline de Souza, 41 anos, conta que vários familiares que atuam no ramo, estão passando dificuldades. “Há quase seis meses fomos pegos de surpresa por este vírus. A pandemia mundial nos afetou diretamente, pois impossibilitou o nosso trabalho, o básico para sobreviver. Não temos previsão de retorno, estamos angustiados e sem nenhum tipo de subsídio por parte do Governo”.

Aline, com a filha Ísis, de 5 anos, não concorda com volta às aulas antes de vacina

A condutora conta que a sua situação só não é pior, pois o marido, Flávio, que é industriário, segue trabalhando. “Mas há muitos colegas em que o casal trabalha como condutor e ficaram totalmente sem renda. Em todos estes anos jamais imaginei que algo assim fosse acontecer e por tanto tempo”. Aline expõe que, além de não ter como se manter, a categoria amarga com as dívidas que chegam por conta do trabalho. “Estamos todos no vermelho. Só queríamos uma consideração por parte dos governantes para continuarmos em pé dignamente, porque também pagamos nossos impostos, temos família e o trabalho é o nosso sustento. Precisamos de um respaldo para quando retornarmos poder seguir o nosso trabalho”, desabafa.

Como condutora e mãe, apesar do sufoco que os condutores estão enfrentando, ela não concorda com o retorno das atividades escolares nesse momento. “Não acho certo, até que estejamos em uma situação segura. Como cidadãos, passamos a ter mais deveres do que direitos. Espero de verdade pela vacina e pela cura, para que o mundo volte ao curso normal e possamos voltar ainda mais fortes”.

Para Elisandro de Antoni Garcia, que há 16 anos atua no ramo de transporte escolar, se dedicar há uma outra fonte de renda foi a solução para se manter nesse período de crise. “Estou trabalhando com a venda de erva mate e pizza congelada e atendendo mercados, padarias e sacolões. Com essa fonte, consigo manter o básico dos gastos, como comida, água, luz e telefone, o resto está ficando para trás. Tenho colegas vendendo água mineral, gás, carvão, verdura, o que aparecer. Precisamos manter a cabeça no lugar para não pirar, pois é uma situação muito grave”.

Elisandro ressalta que o retorno das aulas, sem nenhum subsídio do governo, não seria uma solução para os condutores. “Se as escolas voltassem a funcionar agora eu não teria como trabalhar, pois estou com mais de R$ 5 mil de impostos atrasados da camionete. É um momento muito triste, jamais imaginávamos passar por tudo isso”.

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