Censo LGBTQIAPN+ tem baixa adesão e grande parte dos participantes disse ser bissexual
Levantamento voluntário reuniu 242 participantes, número abaixo das estimativas possíveis para a população LGBTQIAPN+ local
Cachoeirinha – A Prefeitura de Cachoeirinha recebeu, na tarde desta terça-feira (7), o relatório final do 1º Censo LGBTQIAPN+ do município. A pesquisa, proposta pelo vereador Gustavo Almansa (PT), servirá de base para a formulação de políticas públicas voltadas à população LGBTQIAPN+, especialmente nas áreas de saúde, educação, emprego e renda e moradia.
Embora represente um marco para o município, o levantamento teve participação espontânea e baixa. O censo registrou 242 respondentes, cerca de 0,17% da população estimada de Cachoeirinha, hoje em aproximadamente 142 mil habitantes. A coleta ocorreu entre outubro e dezembro de 2025, por formulário eletrônico e pontos de atendimento em repartições públicas e instituições parceiras.
A baixa adesão fica mais evidente quando comparada aos dados do IBGE. Considerando que 1,8% da população adulta brasileira se declara homossexual ou bissexual, Cachoeirinha poderia ter, proporcionalmente, cerca de 2,5 mil pessoas nesse recorte. Se aplicado o índice das capitais, de 2,8%, a estimativa subiria para aproximadamente 4 mil pessoas. Já pelo percentual de Porto Alegre, de 5,1%, o número chegaria a cerca de 7,2 mil moradores. A comparação não significa que esses sejam os números exatos do município, mas ajuda a dimensionar que o público potencial é bem maior que o total de participantes do censo.
Durante a entrega do relatório, o vereador Gustavo Almansa destacou que a principal contribuição do levantamento é oferecer dados para orientar políticas públicas. “Por meio de dados, possamos conceber políticas públicas e conhecer a origem das demandas para, a partir daí, formular resoluções efetivas”, afirmou.
Segundo Almansa, Cachoeirinha é o segundo município gaúcho a realizar um censo voltado à população LGBTQIAPN+ e o primeiro a concluir e apresentar oficialmente os resultados. O parlamentar disse que os dados deverão ser trabalhados em quatro eixos principais: saúde, educação, emprego e renda e moradia.
Na avaliação da prefeita Jussara Caçapava, o levantamento permitirá maior precisão na elaboração das políticas públicas.
“Uma gestão comprometida com as pessoas precisa conhecer a realidade da sua população. Este censo nos oferece informações importantes para que possamos planejar ações com mais responsabilidade”, afirmou.
Participação por bairros
O Parque da Matriz liderou o número de respondentes, com 28 participantes, seguido pela Vila Cachoeirinha (19), Veranópolis (14), Vila Batista (13), Moradas do Bosque (13) e Jardim do Bosque (13). Também aparecem Vila Anair (12), Centro (10), Vila Pontaporã (9), City (8), Chácara das Rosas (8), Vila Princesa Isabel (7), Parque Granja Esperança (7), Parque Marechal Rondon (6), Cidade de Gravataí (6), Bom Princípio (5), Vila Regina (4), Jardim Imperial (4), Cinco Colônias (4), Vila Eunice (3), Nova Cachoeirinha (3), Vila Vista Alegre (2), Parque Brasília (2) e Distrito Industrial (2).
Perfil dos participantes
Entre os respondentes, a maior concentração estava na faixa de 18 a 29 anos, com 125 participantes. Também foram registrados 209 autodeclarados brancos, 122 mulheres cis, 77 homens cis, 20 pessoas não binárias, 9 homens trans, 5 mulheres trans/travestis, 5 pessoas que não souberam se classificar e 2 pessoas de gênero fluido.
Na orientação sexual, o maior grupo foi de bissexuais, com 88 participantes, seguido por gays (50), heterossexuais (47), lésbicas (34), assexuais (13), pansexuais (10), queer (6), arromânticos (5), pessoas que preferiram não se identificar (2) e demissexual (1).
Escolaridade indica elevado nível de formação
O levantamento aponta um perfil com alto nível de escolaridade entre os participantes. A maior parte possui graduação incompleta (82 respondentes), seguida por graduação completa (42) e ensino médio completo (41). Outros 29 participantes declararam possuir pós-graduação em nível de especialização, enquanto 15 informaram ter ensino médio incompleto, 11 ensino médio incompleto, 5 curso técnico de nível médio, 4 ensino fundamental completo, 4 mestrado, 4 doutorado e 3 ensino fundamental incompleto.
Outra informação que chama a atenção é a diversidade das áreas de formação. Entre os cursos mais frequentes aparecem Psicologia (38 participantes), Administração (13), Pedagogia (12), Ciências Contábeis (8) e Direito (7), além de formações em Design, Ciência da Computação, Farmácia, Enfermagem, Engenharia, Medicina, Logística, História, Filosofia e diversas outras áreas.
Como os participantes se identificam
Em relação à identidade de gênero, a maioria dos participantes se declarou mulher cis, com 122 respondentes, seguida por homem cis (77). O levantamento também registrou 20 pessoas não binárias, 9 homens trans, 5 mulheres trans/travestis, 5 pessoas que disseram não saber como se classificar e 2 pessoas de gênero fluido.
Já sobre a orientação sexual, o maior grupo foi o de pessoas bissexuais, com 88 participantes. Em seguida aparecem 50 gays, 47 heterossexuais, 34 lésbicas, 13 assexuais, 10 pansexuais, 6 pessoas queer, 5 arromânticas, 2 que preferiram não se identificar e 1 demissexual.
Identidade de gênero
| Identidade | Participantes |
|---|---|
| Mulher cis | 122 |
| Homem cis | 77 |
| Pessoa não binária | 20 |
| Homem trans | 9 |
| Mulher trans/travesti | 5 |
| Não soube se classificar | 5 |
| Gênero fluido | 2 |
A identidade de gênero (ser cis) e a orientação sexual (ser bi) são coisas distintas. Ser cis significa que a pessoa se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, enquanto ser bissexual significa que ela sente atração por mais de um gênero.
Orientação sexual
| Orientação | Participantes |
|---|---|
| Bissexual | 88 |
| Gay | 50 |
| Heterossexual | 47 |
| Lésbica | 34 |
| Assexual | 13 |
| Pansexual | 10 |
| Queer | 6 |
| Arromântico | 5 |
| Preferiu não informar | 2 |
| Demissexual | 1 |
Violência e discriminação
O relatório mostra que 91 participantes afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência por serem LGBTQIAPN+. A violência psicológica ou verbal foi a mais citada, com 74 registros, seguida da violência moral (45), sexual (13) e física (9).
Saúde e Segurança lideram demandas
Quando questionados sobre quais áreas mais precisam melhorar, os participantes apontaram:
| Área | Citações |
|---|---|
| Saúde | 166 |
| Segurança Pública | 162 |
| Educação | 153 |
| Cultura, Esporte, Lazer e Turismo | 136 |
| Cidadania e Assistência Social | 130 |
| Desenvolvimento Econômico e Trabalho | 123 |
| Ouvidoria | 87 |
| Habitação | 78 |
O relatório recomenda que o município mantenha mecanismos permanentes de coleta de dados, fortaleça ações intersetoriais e amplie políticas públicas voltadas à promoção da equidade, do respeito à diversidade e da garantia de direitos.
Entenda as orientações sexuais
Bissexual – Pessoa que sente atração afetiva e/ou sexual por pessoas de mais de um gênero.
Gay – Homem que sente atração afetiva e/ou sexual por outros homens. Em alguns contextos, o termo também é usado de forma ampla para pessoas homossexuais.
Heterossexual – Pessoa que sente atração afetiva e/ou sexual por pessoas de gênero diferente do seu.
Lésbica – Mulher que sente atração afetiva e/ou sexual por outras mulheres.
Assexual – Pessoa que sente pouca ou nenhuma atração sexual. Pode ou não desenvolver relacionamentos afetivos.
Pansexual – Pessoa que pode sentir atração afetiva e/ou sexual por outra pessoa independentemente de seu gênero ou identidade de gênero.
Queer – Termo utilizado por pessoas que não se identificam com as classificações tradicionais de orientação sexual ou identidade de gênero, ou que preferem uma definição mais ampla e flexível.
Arromântico – Pessoa que sente pouca ou nenhuma atração romântica por outras pessoas. Isso não significa, necessariamente, ausência de atração sexual.
Demissexual – Pessoa que normalmente só sente atração sexual após estabelecer um forte vínculo afetivo ou emocional com outra pessoa.




