Além da farda: policiais do 17º e 26º BPM revelam a missão de ser pai
Entre a farda e os abraços dos filhos, policiais do 17º e 26º BPM revelam como a paternidade transforma escolhas, prioridades e a forma de enxergar a própria missão
Antes de vestir a farda e sair às ruas para cumprir a missão de proteger a sociedade, muitos policiais militares assumem diariamente outro compromisso, que começa dentro de casa: o de ser pai. São homens que conhecem os desafios e os riscos da carreira policial, mas que também carregam uma responsabilidade que vai além do uniforme: acompanhar o crescimento dos filhos, participar das conquistas e estar presente, mesmo quando a rotina profissional impõe momentos de distância.
Neste domingo, 9 de agosto, quando é celebrado o Dia dos Pais, o site O Repórter apresenta as histórias de cinco policiais militares dos batalhões de Gravataí e Cachoeirinha. Os soldados Leandro Coruja Bandeira, Diogo Ávila e Eduardo Garcia, além dos tenentes-coronéis Estevão Navarro e Alexsandro Goi, compartilham experiências que mostram como a paternidade transformou a forma de enxergar a profissão, influenciou escolhas e reforçou valores aprendidos dentro da própria família.
Na Brigada Militar, escalas de serviço, plantões, feriados e datas comemorativas fazem parte da rotina profissional e, muitas vezes, significam estar longe de casa em momentos importantes. Porém, ao retornar ao ambiente familiar, esses policiais assumem uma nova missão, sem horário definido e sem escala: acompanhar os filhos, orientar, educar e construir memórias que permanecem para toda a vida. A farda representa o compromisso de proteger a comunidade. A paternidade representa uma missão construída diariamente, baseada no cuidado, no diálogo e, principalmente, no exemplo.
Leandro: quando a proteção começa dentro de casa

Para o soldado do 17º Batalhão de Polícia Militar de Gravataí, Leandro Coruja Bandeira, pai de Helena, de 5 anos, a chegada da filha mudou a forma como passou a enxergar a vida e a própria profissão. A rotina policial, segundo ele, muitas vezes coloca o profissional distante justamente nos momentos em que a família costuma estar reunida.
Enquanto muitas pessoas aproveitam feriados e datas especiais ao lado de quem amam, os policiais estão nas ruas cumprindo a missão de garantir a segurança da população.“Quando a sociedade está comemorando alguma coisa, um feriado, uma data especial, muitas vezes somos nós que estamos fazendo a segurança. Então, acabamos ficando longe da família em alguns momentos”, explica.
A paternidade também trouxe novas prioridades. Leandro passou a valorizar ainda mais os momentos simples ao lado da filha e encontrou nas lembranças da própria infância referências para construir essa relação. Ele recorda os dias vividos com o pai em um sítio, os passeios a cavalo, as frutas colhidas no pé e experiências que, apesar da simplicidade, se transformaram em memórias que permanecem até hoje. São momentos que procura reproduzir com Helena. “Toda a parte boa que ele me passou, eu tento passar para ela”, afirma.
Em 2024, a relação entre pai e filha ganhou um significado ainda mais profundo quando Helena enfrentou um problema de saúde e apresentou febre elevada. Mesmo sendo enfermeiro e tendo conhecimento técnico para lidar com situações médicas, Leandro percebeu que cuidar de um filho envolve sentimentos que vão além da preparação profissional. “Por mais que eu seja enfermeiro e tenha contato com esse outro lado, quando acontece com a gente é diferente”, relata.
A situação também trouxe uma reflexão sobre os limites do controle. Acostumado a cuidar de outras pessoas, Leandro descobriu que, quando o problema envolve a própria família, as emoções ganham outra dimensão. “Ali eu percebi que faço tudo o que posso, mas também entendi que existem coisas que fogem do nosso controle.”
Ao falar sobre Helena, a emoção aparece na voz do policial. Para ele, a filha representa a maior motivação para seguir em frente e o compromisso mais importante de sua vida. “Ela é tudo para mim. Eu cairia dez vezes para ela não precisar tropeçar nenhuma vez. A Helena é a minha vida. Ela já fez meu coração acelerar, sentir frio na barriga e aquele aperto ao ouvir ela me chamando de pai pela primeira vez. O sorriso, o abraço e até o choro dela me motivam a seguir em frente.”
Leandro destaca a dupla missão que acompanha sua trajetória. Nas ruas, veste a farda para proteger a comunidade. Em casa, exerce o papel de pai, ensinando, cuidando e construindo lembranças que serão levadas para o futuro.
Diogo: a farda, as filhas e o sonho da valsa
O soldado do 17º Batalhão de Polícia Militar de Gravataí, Diogo Ávila, também passou a enxergar a profissão de uma nova maneira depois de se tornar pai. Pai de Giovana, de 8 anos, e Maitê, de 2 anos, ele lembra que a chegada da primeira filha mudou suas prioridades e trouxe um novo significado para a carreira policial. “Eu mudei completamente. Há nove anos, dentro da corporação, eu era uma coisa. Quando a Giovana nasceu, quando descobri que ia ser pai, mudou tudo”, recorda.

A partir daquele momento, a preocupação com a possibilidade de não voltar para casa após um turno de serviço passou a ter outro peso. A missão de proteger a sociedade ganhou um novo sentido: também significava retornar para acompanhar o crescimento das filhas. Por isso, Diogo buscou uma função dentro da corporação que permitisse maior proximidade com a família. Entre as razões para essa escolha está uma lembrança da própria infância: o momento em que viu o pai dançar a valsa com a irmã na festa de 15 anos.
A cena permaneceu guardada como um símbolo de carinho e presença. Hoje, ele deseja viver a mesma experiência com as próprias filhas. “Eu quero muito dançar a valsa com as minhas duas filhas”, afirma. A chegada de Giovana foi uma conquista muito esperada pela família. Antes da gravidez, Diogo e a esposa, Rafaela, passaram cerca de dois anos tentando ter um filho. Quando finalmente receberam a notícia da gestação, ela preparou uma surpresa para contar ao marido. O momento foi registrado em vídeo e permanece como uma das lembranças mais especiais do casal.
Dois anos depois, nasceu Maitê, trazendo uma nova fase para a família e também novos desafios. Atualmente, os pais acompanham uma investigação sobre a possibilidade de autismo, experiência que mudou a forma como Diogo passou a compreender pequenas conquistas do dia a dia. Para ele, cada avanço da filha representa uma vitória construída com paciência e dedicação. “A gente achou que ela seria não verbal, mas já está falando algumas palavras. É um tijolinho por tijolinho, um passo depois do outro.”
Dentro de casa, a farda também ganhou um novo significado. Para Giovana, o pai é uma referência. Em algumas ocasiões, ela pediu que ele fosse uniformizado em apresentações escolares para mostrar aos colegas. “Para ela, eu sou o super-herói que usa farda”, conta.
Mas, para Diogo, o maior reconhecimento está na forma como as filhas enxergam o pai. No quartel, ele é um dos muitos policiais que diariamente cumprem a missão de servir e proteger. Para elas, porém, ocupa um lugar único. “Aqui no batalhão somos só mais um, porque tem muita gente. Mas, para ela, eu sou o único. Sou o cara. Sou o mundo dela.” Diogo revela que, por trás da farda, existe um pai que também enfrenta desafios, alimenta sonhos e busca estar presente nos momentos que ajudam a construir a trajetória das filhas.
Eduardo: valores que passam de pai para filho

Para o soldado do 26º Batalhão de Polícia Militar de Cachoeirinha, Eduardo Garcia, a paternidade está diretamente ligada ao exemplo. Pai de Gabriely, de 15 anos, e de Laura, de 5 meses, ele vive atualmente duas fases distintas da criação dos filhos: acompanha os desafios da adolescência da filha mais velha e, ao mesmo tempo, redescobre as experiências dos primeiros meses de vida de um bebê.
A forma como conduz a relação com as filhas tem como base os ensinamentos recebidos do próprio pai, valores que permanecem como uma herança construída ao longo da vida. “Aprendi com ele o valor do respeito, da honestidade, da responsabilidade, do trabalho e da fé em Deus. Nem tudo foi perfeito, mas os bons ensinamentos permaneceram e hoje procuro transmiti-los às minhas filhas por meio das minhas atitudes”, explica.
Para Eduardo, a presença paterna vai muito além das palavras. O comportamento diário é o principal ensinamento deixado aos filhos. “Os filhos podem até esquecer o que ouvem, mas dificilmente esquecem o exemplo que veem todos os dias.”
A rotina policial, marcada por escalas de serviço e horários diferenciados, impõe desafios para a convivência familiar. Mesmo assim, Eduardo procura valorizar cada momento ao lado das filhas e participar das diferentes fases de suas vidas. Neste Dia dos Pais, ele resume sua maior responsabilidade em um desejo: ter sabedoria para continuar transmitindo os valores que recebeu e ajudar as filhas a construírem seus próprios caminhos.
Estevão: o legado deixado pelo pai
Aos 52 anos, o Comandante do 17º Batalhão de Polícia Militar de Gravataí, Tenente-coronel Estevão Navarro, encontra na própria história familiar as referências que utiliza para exercer a paternidade. Pai de uma filha de 17 anos e responsável também pela criação de dois enteados, ele mantém vivos os ensinamentos deixados pelo pai, Orestes, que marcou sua trajetória com valores que permanecem presentes até hoje.
Mecânico de automóveis e ex-militar do Exército, Orestes ensinou ao filho princípios relacionados à honestidade, responsabilidade e caráter. Entre as lembranças que atravessaram gerações estão momentos simples em família, como viagens, dias na praia e experiências compartilhadas que ajudaram a fortalecer os laços familiares.

Foi também o pai quem ensinou Estevão a nadar. Porém, entre tantos ensinamentos, uma frase ficou especialmente marcada e passou a orientar sua forma de enxergar a vida: “É melhor fazer o bem e ser mal compreendido do que fazer o mal e ser bem compreendido.”
Hoje, esses valores fazem parte da maneira como Estevão conduz a criação dos filhos. A carreira militar, no entanto, também apresenta desafios. Em alguns momentos, compromissos profissionais impedem a presença em atividades escolares ou momentos importantes da rotina familiar. Mesmo assim, ele procura aproveitar cada oportunidade ao lado dos filhos. “Às vezes a gente se sente um pouco ausente pelos afazeres e pelo trabalho, mas procura, na medida do possível, estar sempre presente.”
Para o tenente-coronel, ser pai também significa preparar os filhos para as escolhas e desafios da vida adulta. Ao olhar para a própria trajetória, reconhece a importância da base construída pelos pais. “Eu só cheguei onde cheguei porque tive a estrutura da minha mãe e do meu pai sempre do meu lado, me apoiando e trabalhando o meu caráter. E hoje sigo levando isso para os meus filhos.”
Alexsandro: uma história que atravessa gerações

A relação do Comandante do 26º Batalhão de Polícia Militar de Cachoeirinha, Tenente-coronel Alexsandro Goi, com a Brigada Militar começou ainda na infância, antes mesmo de imaginar que um dia chegaria ao comando de uma unidade. A principal referência veio de casa. Filho de um policial militar que atuou como soldado, cabo e sargento da Brigada Militar, Alexsandro cresceu acompanhando de perto a rotina da corporação e tendo no pai um exemplo de dedicação e compromisso.
Uma das primeiras lembranças remonta a 1978, quando ainda era criança e acompanhava o período em que o pai realizava o curso para cabo, em Rio Pardo. Com o passar dos anos, os quartéis passaram a fazer parte de sua infância e adolescência. Ao passar em frente à Academia da Brigada Militar, costumava ouvir do pai que aquele seria o local onde ele se tornaria tenente. O que parecia uma previsão acabou se transformando em realidade.
Alexsandro estudou no Colégio Tiradentes, ingressou na Academia Militar e construiu sua trajetória dentro da Brigada Militar. Durante todo esse caminho, o pai permaneceu como uma referência. “Meu pai sempre foi um exemplo para mim nesse sentido e também foi quem me guiou para ser oficial da Brigada”, recorda.
Ao se tornar pai, Alexsandro passou a enxergar essa relação sob uma nova perspectiva. Com a filha Júlia, procurou apresentar diferentes possibilidades profissionais, deixando que ela construísse suas próprias escolhas. Ela estudou no Colégio Tiradentes, destacou-se nos estudos, no esporte e na área cultural, e posteriormente seguiu carreira na biomedicina.
Com Henrique, de quase 6 anos, a aproximação com a carreira militar surgiu naturalmente. Ao acompanhar o pai fardado e visitar quartéis, o menino passou a demonstrar interesse pela profissão. “Eu gosto dos caminhões de bombeiro, quero ser bombeiro, quero ser coronel dos bombeiros”, costuma dizer. Alexsandro aproveita esse interesse para ensinar ao filho que qualquer trajetória profissional exige dedicação, estudo e preparação. Também apresenta outras possibilidades dentro da área militar, como a Academia Militar das Agulhas Negras. Hoje, Henrique já afirma que pretende ser “cadete das Agulhas Negras”.
Para o comandante do 26º BPM, a paternidade também se tornou uma fonte de motivação para continuar sua trajetória profissional. Próximo do fim da carreira, ele afirma que o filho representa um incentivo para permanecer na Brigada Militar e buscar alcançar o último posto da instituição: o de coronel. “A história, dessa forma, atravessa gerações. O menino que um dia ouviu do pai que seria tenente hoje transmite ao próprio filho que sonhos são construídos com dedicação, estudo e preparação”, finaliza.
Mensagem dos tenentes-coronéis aos pais do 17º e do 26º BPM
Neste Dia dos Pais, os Comandantes do 17º e do 26º Batalhão de Polícia Militar, Tenentes-coronéis Estevão Navarro e Alexsandro Goi prestam uma homenagem aos policiais militares que conciliam diariamente duas grandes missões: proteger a sociedade e cuidar da própria família. “Sabemos que a missão policial exige dedicação, responsabilidade e, muitas vezes, a difícil escolha de estar distante da família em momentos importantes.

Cada pai que veste a farda carrega duas grandes responsabilidades: nas ruas, proteger a sociedade; dentro de casa, educar, orientar e ser referência para seus filhos. São missões diferentes, mas que possuem o mesmo propósito: cuidar de pessoas e contribuir para a construção de um futuro melhor.
Neste domingo, nosso reconhecimento é destinado a todos os pais que integram a Brigada Militar e também às suas famílias, que compartilham os desafios e as particularidades da profissão policial. Que cada policial possa aproveitar este momento ao lado daqueles que ama e lembrar que o maior legado deixado aos filhos não está apenas nas palavras, mas principalmente nas atitudes e no exemplo construído diariamente.
Feliz Dia dos Pais a todos os pais do 17º e do 26º BPM. Que Deus abençoe cada família e fortaleça aqueles que cumprem, todos os dias, a missão de servir e proteger.”





